Ele foi o dono de uma das vozes mais belas da história da música brasileira em todos os tempos. Foi também um exemplo máximo de sofisticação à frente de um microfone e também ao piano, já que era um instrumentista de primeira linha.

Quando a velha maneira de cantar empostado, com vozeirões soltados de modo histriônico, começou a ser aposentada com a chegada da bossa nova e suas vozes aveludadas a partir de 1958, Tito Madi logo se destacou justamente porque soube equilibrar as duas vertentes aparentemente antagônicas em um estilo próprio que acabou sendo determinante para influenciaram o próprio João Gilberto e cantores das gerações posteriores, como Wilson Simonal e até mesmo Roberto Carlos e Milton Nascimento. Ao lançar, em 1963, uma de suas mais belas composições, “Balanço Zona Sul” – que acabou sendo eternizada ainda mais com a interpretação de Simonal anos depois -, Madi mostrou para a “turma de Copacabana” que era tão moderno quanto eles.

Só que o negócio dele era o romantismo. A maciez de sua voz era perfeita para o samba-canção refinado que permeou cada um de seus ótimos LPs. Assim como fizeram Dorival Caymmi e Johnny Alf, Madi enxugou o excesso de dramaticidade presentes nas canções antigas e incutiu uma serenidade triste e poética de fazer chorar até mesmo um grupo de neonazistas. Basta ouvir “Chove Lá Fora” (1957) e “Cansei de Ilusões” (1956) para perceber que ele fez da melancolia uma forma de arte:

 

Até mesmo os gringos chaparam com as canções e a voz de Madi. Quando o famosíssimo grupo vocal The Platters esteve no Brasil em 1957, no auge do sucesso mundial, os integrantes e seu produtor Buck Ram ficaram tão encantados com a obra dele que, assim que voltaram aos Estados Unidos, a primeira coisa que fizeram foi gravar em inglês três canções de Madi: “Chove Lá Fora” virou “It’s Raining Outside”, “Quero-Te Assim” foi traduzida como “I Wish” e “Rio Triste” virou “Sad River”, tudo devidamente creditado:

 

Meus discos favoritos de Madi são o sensacional …E a Chuva Continua, de 1959, e a espetacular série A Fossa, com quatro volumes, na qual ele mostra seus maravilhosos dotes como pianista de boate, imprimindo um intimismo tão absurdo que é impossível não chorar por algum amor perdido, mesmo que você jamais tenha amado alguém na vida:

 

Seu último trabalho tinha sido o álbum Quero Te Dizer que Te Amo, de 2015, junto com o pianista Gilson Peranzzetta, mas passou alguns meses atrás participando de um disco ainda inédito de uma de suas mais fervorosas fãs, Nana Caymmi, só com composições dele. Nem mesmo o AVC sofrido em 2008 o afastava da música: ia até o estúdio em cadeira de rodas. Só que todo o esforço acabou ontem, quando ele faleceu por causa de uma pneumonia agravada por problemas renais.

O corpo morreu, não a voz. Ela é imortal.