Não, não é um disco pessimista, mas passa um pouco distante do som ensolarado e divertido de seus trabalhos anteriores. Na verdade, o que temos em Cinzento (2020) não é mais aquela imediata associação que até então se fazia entre Marcos Valle e a atmosfera sonora de um Rio de Janeiro que ainda dá seus espasmos de elegância no meio da podridão social/político/musical que está muito longe do “purgatório da beleza e do caos” cantado por Fernanda Abreu.

O que se ouve em cada faixa desse seu novo álbum é que o cultuado multi-instrumentista está cansado. A começar por sua voz, fragmentada e sem força, como se Valle estivesse mais preocupado em privilegiar a parte instrumental de suas composições.

Evidentemente, não serei burro para fazer qualquer tipo de comparação com algumas das obras primas que ele lançou no passado, como Previsão do Tempo (1973), mas mesmo com o brilhantismo melódico/harmônico/rítmico de seu som – grande parte dele por conta das performances elegantes do baixista Alberto Continentino e do baterista Renato Massa Calmon -, não dá para ignorar um clima melancólico a pairar sobre o disco inteiro, a começar pelo tema que abre o disco, “Reciclo”.

 

Os tradicionais grooves malemolentes que exemplificam tão bem a mistura de samba com o VERDADEIRO funk estão sempre presentes, mas o disco inteiro – notadamente em canções como “Só Penso em Jazz” e “Posto 9” – revisitam notas e acordes de um passado completamente inexistente nos dias atuais de um Rio que, infelizmente, parece estar presente apenas nas lembranças do próprio Valle. É uma nostalgia quase inocente.

 

 

As participações especiais de Kassin, Moreno Veloso, Bem Gil e, principalmente, Emicida – que retribui na bela faixa-título a presença do veterano cantor/compositor em “Pequenas Alegrias da Vida Adulta”, uma das boas canções do disco que o rapper lançou do ano passado, AmarElo, evidenciam o desejo de Valle se conectar a quem meio que pensa como ele, mas por um viés mais moderno. Faz sentido, ainda mais se levarmos em consideração a veia poéticas que ambos fazem questão de preservar e enaltecer.

 

O tema final, a instrumental “Sem Palavras”, traz em sua extensão um sopro de esperança por novos tempos mais saudáveis. É como se Valle tivesse construído metade uma ponte que vai ligar tudo ao disco seguinte. Aguardemos então…