O ano era 1977. Ninguém da minha turma de amigos era ligada em MPB. Nem eu. Nossa atenção estava voltada para o rock, fosse ele “pauleira”, progressivo ou misturado com o jazz. Naqueles tempos, eu ainda não tinha descoberto as maravilhas da música brasileira em toda a sua profundidade. Gostava de algumas músicas dos grandes nomes da época – Milton, Gil, Caetano e alguns outros -, mas ainda não tinha o envolvimento musical que passei a ter nas décadas seguintes. Normal. Roqueiro cabeludo naqueles tempos não era lá sinônimo de “mente aberta”, embora eu fosse o menos radical entre os meus amigos.

Foi então que todos nós tomamos um soco na cara de nosso radicalismo quando foi lançado o primeiro e autointitulado álbum de um grupo carioca chamado A Cor do Som. Não estávamos preparados para ouvir uma mistura de rock, jazz e… chorinho! Sério: fiquei dias seguidos ouvindo aquilo como se estivesse decifrando alguma longa sequência de hieróglifos. Como era possível criar um amálgama sonoro tão surpreendente para ouvidos roqueiros como s nossos?

As respostas vinham aos poucos, conforme começamos a entender o que estava impresso nos sulcos daquele disco e dois álbuns seguintes, seguintes, A Cor do Som ao Vivo no Montreux International Jazz Festival (1978) e Frutificar (1979), quando então a banda dos irmãos Dadi e Mu Carvalho, Armandinho, Gustavo Schroeter e Ary Dias se transformou em uma quase unanimidade nacional. Vou escrever a respeito disso em outra ocasião, porque o assunto aqui é outro…

Mu 1977

Na época, lembro bem da cara de menino do tecladista. Quando a banda estourou nas rádios com duas faixas cantadas pelo baixista Dadi, “Abri a Porta” e “Beleza”, foi Mu quem se transformou no alvo da mulherada. Todas as garotas que conhecíamos queriam transar com ele. Obviamente, passamos a ter raiva dele. Sabe como é esse lance de hormônios à flor da pele, né?

Décadas de passaram. A Cor do Som entrou em um declínio musical impressionante, mesmo com todos os músicos talentosos que passaram por suas diferentes formações, até que ressurgiram tempos atrás, fazendo shows vigorosos e honrando um passado de glórias. E ali sempre estava – e ainda está – Mu e sua eterna cara de garoto, agora em um corpo mais envelhecido. Entretanto, sua música continua tão viva quanto ao espírito de um jovem que havia decifrado aquilo que décadas atrás demoramos a entender.

Mesmo antes da Cor do Som, o moleque já era um veterano: em 1974, já era tecladista da mítica Banda do Zé Pretinho que acompanhava Jorge Bem, e nos anos seguintes gravou nos dois primeiros álbuns de Moraes Moreira em carreira solo – Moraes Moreira (1975) e Cara e Coração (1977) -, compôs um grande hit do Roupa Nova, “Sapato Velho”, junto com Claudio Nucci e Paulinho Tapajós, até que veio o lance da Cor do Som. O cara era um prodígio! Não foi à toa que passou os anos seguintes tocando também na banda do Gilberto Gil e gravando discos da Baby Consuelo, Chico Buarque, Alceu Valença, além de ter sido o tecladista nos shows do Legião Urbana. Sem contar que virou um especialista em trilhas sonoras para teatro, cinema e TV. Fez algumas merdas, claro, como topar ser um dos integrantes do horrível grupo Tigres de Bengala, cheios de figuras famosas dos anos 80 – Ritchie, Vinicius Cantuária, Claudio Zoli, o irmão Dadi – e que graças a Deus só lançou um único disco em 1993 antes de se esfacelar. Bem, ninguém é perfeito…

Demorou muito para que seus álbuns gravados em carreira solo caíssem em minhas mãos. Bem, antes tarde do que nunca, né? Enquanto escrevo este texto, estou ouvindo cada um deles: Meu Continente Encontrado (1985), O Pianista do Cinema Mudo (2002), Ao Vivo (2008), Óleo Sobre Tela (2009), Elétrico Nazareth (2013), todos muito bem gravados e lotados de composições bacanas e esclarecedoras a respeito de como Mu construiu sua personalidade musical baseada em tantas influências diferentes. E isso é uma lição para todos os “cabeças fechadas” que existem por aí…