Tente imaginar a seguinte cena: meados de 1986, nos camarins de um festival na Holanda, Gibby Haynes, líder do cultuado Butthole Surfers, está completamente enlouquecido. Ele acabou de matar uma garrafa de uísque sozinho, tomou LSD como se fosse chocolate Bis, andou pelado pelo backstage, tentou agarrar qualquer mulher que apareceu na sua frente, tomou porrada de várias pessoas, vomitou em cima delas… Era o retrato de alguém possuído pelo mais poderoso dos demônios.

Quando ele parecia estar prestes a entrar em colapso, um tiozinho aparece na porta do camarim e pergunta educadamente se alguém ali poderia emprestar uma… guitarra. Totalmente alucinado, Haynes começa a dar um tremendo esporro no homem franzino que está à sua frente. “Seu merda, como você aparece em um festival sem a porra da guitarra? Quem é você, cacete?”. E o tiozinho responde calmamente: “Oi, sou o Alex Chilton”.

Como em um passe de mágica, Haynes arregala os olhos, fica sóbrio instantaneamente, se ajoelha, abre os seus três cases de guitarras que ele tem ali no chão e com a voz mais submissa do planeta, diz: “Pelo amor de Deus, pegue qualquer uma que você queira”.

As pessoas ao redor estão incrédulas! O tal tiozinho pega um instrumento, agradece, vira as costas e vai em direção ao seu próprio camarim, deixando para trás um Haynes em choro quase convulsivo, entremeado por uma baba que cai de sua boca nojenta a lubrificar um único murmúrio: “Meu Deus, Alex Chilton vai tocar com a minha guitarra…”

A história que acabei de contar, absolutamente verídica – ela foi abordada em detalhes no livro Our Band Could Be Your Life: Scenes from the American Indie Underground, 1981-1991, escrito por Michael Azerrad -, dá a real noção da influência de Alex Chilton dentro da cena americana underground nos Estados Unidos a partir da década de 80. O cara foi o responsável quase direto pelo surgimento de grupos como REM, Firehose, Lemonheads e The Replacements, sendo que esse último chegou a compor e gravar uma canção chamada “Alex Chilton” em seu disco Please to Meet Me, de 1987.

A reputação de Chilton vinha desde os anos 60, quando emendou hit atrás de hit com o seu grupo Box Tops – para você ter uma ideia do talento do cara, com apenas dezesseis anos de idade ele emplacou uma linda canção, “The Letter”, no primeiro lugar da parada americana. Quando a banda acabou, Chilton ficou zanzando por Nova Iorque, estudando a técnica de guitarra de Steve Cropper, o lendário guitarrista do Booker T & The MG’s e responsável por 99% das guitarras que você ouve em qualquer canção lançada pela gravadora Stax.

Ao voltar para sua cidade, Memphis, Chilton montou o extraordinário grupo Big Star e gravou três discos – #1 Record (1972), Radio City (1973) e Third (1974) – recheados de canções inacreditáveis de tão boas. Uma delas você deve conhecer: é “In the Street”, que virou tema de abertura do seriado That ‘70s Show, mas havia outras maravilhas, como “September Girls”, “Ballad of El Goodo”, “Back of a Car”, “Thirteen”, “I’m in Love With a Girl” e mais uma cacetada de outras.

Foi então que Chilton desencanou da banda, voltou para Nova Iorque e se envolveu com a então cena punk emergente do clube CBGB, mudando completamente a sua própria concepção sonora. Foi ele quem descobriu os doidaços do The Cramps – Chilton produziu os dois primeiros discos dos caras, os deliciosamente infames Gravest Hits e Songs the Lord Taught Us. Dali em diante, ele enveredou uma carreira solo errática, cheia de experimentos sônicos desconcertantes. A impressão que se tinha é que Chilton tinha a intenção de sabotar a si mesmo…

Na década passada, Chilton parecia ter se reconciliado com os fantasmas de seu passado, chegando a remontar o Big Star com outros integrantes e até mesmo a fazer shows com um ocasionalmente ressuscitado Box Tops. Até que um ataque do coração o matou em março de 2010 e levou embora um dos artistas mais inquietos e brilhantes de todos os tempos, cujo legado musical ainda vai fazer com que muita molecada se anime a pegar um instrumento.