Confesso que ando um pouco apreensivo com o descaso com que as novas gerações tratam a música brasileira do passado. Tive tal sensação quando, semanas atrás, fui convidado para gravar um depoimento para um trabalho de “TCC” de alguns alunos de uma faculdade aqui de São Paulo a respeito de música brasileira. Quando citei a quase simbiose entre o samba e o jazz na década de 60, a turma ficou desconcertada. Olharam para mim como se eu tivesse dito algo completamente fora desta galáxia. Ainda vou escrever mais a respeito deste assunto…

Por hora, trago aqui dois discos essenciais para quem tem vontade de entender esta relação existente entre dois gêneros aparentemente tão diferentes. Considere isto como uma “introdução ao assunto”. Detalhe: estes álbuns foram relançados anos atrás em edições remasterizadas pelo incansável pesquisador Charles Gavin – sim, ele mesmo, o ex-baterista dos Titãs -, que teve a iniciativa e o imenso trabalho em “desencavar” tais preciosidades dos ricos e criminosamente negligenciados arquivos das gravadoras EMI e Som Livre.

 

som três

SOM TRÊS – Tobogã

Surgido a partir das cinzas do Jongo Trio, o Som Três era comandado pelo pianista/tecladista Cesar Camargo Mariano e servia de banda de apoio para o cantor Wilson Simonal, mas resolveu fazer vôo solo em 1970 com este Tobogã. O que temos aqui são temas brilhantemente arranjados, começando por “Irmãos Coragem” – versão instrumental do tema épico da novela homônima que foi ao ar pela Globo naquela época e que ainda apresenta o mesmo vigor que emanava na época. As performances dos extraordinários Sabá e Toninho Pinheiro – respectivamente, contrabaixista e baterista – são incrivelmente sutis e bem colocadas, principalmente nas suingadas “Eu Já Tenho Você” (cantada por Toni Tornado), “O Telefone Tocou Novamente” e “Eu Só Posso Assim”. É samba-jazz de primeiríssima qualidade.

 

 

 

quarteto novo

QUARTETO NOVO – Quarteto Novo

Esse era o grupo que acompanhava Geraldo Vandré e que, infelizmente lançou apenas este álbum, em 1967. Com a presença de feras que, posteriormente, alcançariam projeção nacional e internacional – o multiinstrumentista Hermeto Pascoal, o baterista/percussionista Airto Moreira, o guitarrista/violonista Heraldo do Monte e o baixista e também violonista Théo de Barros -, o quarteto embarcou em experimentações bastante distintas, seja no regionalismo jazzy de “Fica Mal com Deus (de Vandré) e “Síntese”, seja na cadência armorial nordestina de “Canta Maria”, “Misturada” e “Algodão”, esta última com um solo de contrabaixo bem bacana de Théo. Abaixo, você pode ouvir esta “belezura” na íntegra:

 

Ouça tudo com atenção e não deixe de mostrar esses sons aos seus filhos. Quem sabe eles não embarquem em uma viagem musical que pode mudar – para melhor, claro! – a vida de cada um?