Tenho alguns amigos que considero praticamente como “irmãos”. Um deles é Ronaldo Martins, que estreia neste espaço com a matéria que você vai ler abaixo em instantes. Quando ele enviou esse texto para mim, contendo uma entrevista que fez com o filho do proprietário do lendário CBGB’s  – nem preciso explicar do que se trata, né? -, não tive dúvidas em abrir espaço aqui no blog para sua publicação, pois ele oferece uma outra visão a respeito do mítico bar novaiorquino que foi o berço do punk americano, que em pouco tempo contagiou a Europa e o mundo inteiro. Leia com atenção!

Em 15 de outubro de 2006, Patti Smith e sua banda subiram pela última vez ao palco do lendário CBGB em Nova York. Se pudéssemos espiar dentro de sua cabeça, ela certamente não acreditaria que ainda estaria tocando quase 31 anos depois de ter pisado naquele mesmo espaço pela primeira vez em 14 de fevereiro de 1975. Ainda mais no mesmo local onde ela e toda uma geração de rockers, punks e novaiorquinos que simplesmente gostavam de ouvir um som ao vivo que não fosse pop, rock progressivo ou disco music se despediam naquela mesma noite.

 “O CBGB estava muito acima dos outros clubes. Naquela época, ou você tocava ou sumia. Não havia vídeos, a rádio não tocava artistas sem contrato e ninguém chegava perto de você. Era um lugar de diversão caótica, fumacento, sujo e com o pior banheiro da história do mundo!” – declarou Fred Schneider, vocalista do B52`s.

“Não vou dourar a pílula”, comentou a mesma Patti Smith, ainda suada e esbaforida após sair do palco. “Esse lugar era uma latrina quando começamos (infelizmente, o termo “shithole” não tem uma tradução poderosa o suficiente). O som era horroroso, tudo vivia quebrando, gente jogava copos e garrafas no palco e para o alto… Sem contar as ratazanas no camarim que tornavam impossível ficar por lá. Porém, era a nossa pocilga, o único lugar em que realmente nos sentíamos em casa.”

banheiro

 

Durante 33 anos, o CBGB foi sinônimo de música em alto volume, de garantia de conhecer novas bandas e de desprendimento de si próprio em favor de qualquer coisa que estivesse rolando naquelas noites. O bar sequer havia nascido com a finalidade de ser um local para bandas de rock e muito menos recebia a devida atenção de seu fundador, Hilly Kristal.

hilly

“Perder o CBGB ligou a contagem regressiva para perdermos Hilly”, comentou Steve Van Zandt em seu funeral, em 2007, um ano após o fechamento do clube. “Nós o amávamos e ele sabia disso”, relembrou Patti Smith na mesma época”. “Nós amamos o CBGB e tudo o que Hilly fez por nós”. “Sem ele, nossa banda não existiria”, disse um emocionado Chris Frantz, baterista do finado Talking Heads, no funeral de Kristal.

Hilly ou Hillel, como batizado pelos seus pais, teve uma história como muitas outras em Nova York. Filho de imigrantes russos nascido durante a Grande Depressão, se viu obrigado por questões financeiras a sair do agonizante centro financeiro do mundo para uma fazenda de galinhas em Nova Jersey, encontrando na música – mais especificamente no violino – a sua chance de vencer na vida. Entre penas e ovos, passando pela dedicação ao estudo de sua paixão e um período no exército, Hilly conseguiu um lugar como cantor no disputadíssimo coral masculino do Radio City Music Hall, graças a seu gravíssimo Dó.

 Mesmo com um cobiçado lugar no então melhor coral da cidade, Hilly buscou mais. Trabalhando no Villlage Vanguard, descobriu como ser para a música muito mais que apenas um músico. Como gerente, abriu espaço para Miles Davis e muitos outros músicos de jazz, fomentando a música como jamais sonhara antes. Certo de seu propósito, ele fundou o Schaefer Music Festival em sociedade com Ron Delsener, contando com bandas como The Who, Frank Zappa e Beach Boys. Um contrato mal lido o tirou da sociedade pouco tempo depois.

De saco cheio de depender dos outros, Kristal inaugurou o Hilly´s no East Village, um bar mais high end onde o jazz comia solto. Expandiu os negócios abrindo o Hilly’s on the Bowery em uma região decadente de Nova York, que durou apenas dois anos. Tempo depois, reinaugurou o local como CBGB, visualizando vários shows de country, bluegrass e blues (“CBGB”, sacou?) e mais um salão cheio para um público diferente do Hilly’s. Óbvio que a ideia inicial naufragou. As bandas estavam lá, mas o público não vinha.

 O Bowery dos anos 70 era um dos piores locais de uma já violenta Nova York. Dominado por mendigos, bêbados, bandidos e desajustados, os jovens que moravam lá não queriam ouvir músicas sobre corações partidos, campos de algodão ou a vida no campo. Isso era muito, mas muito distante da realidade deles. Além disso, o Hilly’s era mais lucrativo e Kristal ainda dava suas canjas em jams por lá. Até que um dia ele foi convencido por Bill Page e Rusty McKenna a delegar o agendamento de shows, já que ambos prometeram melhorar o público da casa porque, segundo eles, conheciam todo mundo. Nada tendo a perder, a ideia foi aceita.

Squeeze, The Revelons, Patti Smith Band e outras que falavam a linguagem do Bowery de forma nervosa começaram a figurar na casa e trazer seu público. A casa cresceu e floresceu muito antes de alguém saber o que era “punk”. Kristal tinha uma única lei: “nada de covers”. Consegue imaginar isso hoje em dia? Se o CBGB fosse como todos os outros bares, Ramones, Television, Blondie e o punk como um todo poderiam simplesmente não existir. Para se pensar, não é mesmo?

 O CGBG tornou-se tão icônico que muita gente acaba esquecendo de Kristal ao falar do clube hoje em dia. Mesmo fechado, o legado está imortalizado. Tudo o que aconteceu depois disso é história contada. Ele fechou a casa no East Village e dedicou-se de corpo e alma ao CBGB, fazendo do local a lenda que se tornou.

 É muito fácil enxergar a mentira contada pelo filme CBGB – O Berço do Punk Rock, dirigido por Randall Mille e que, supostamente, conta a história do local. Nem de longe Kristal era o administrador relapso ali caricaturado, muito menos que sua filha Lisa Kristal Burgman tenha sido a salvadora da pátria – ela atualmente administra o espólio do pai e tem outra versão de tudo o que aconteceu. Ele era um lutador, um cara endurecido pela infância pobre e pelo exército que soube crescer por meio de uma paixão. Ou pelo menos era isso o que eu pensava até que, ao buscar por mais histórias para este artigo, consegui bater um papo com Mark Dana Kristal, filho de Hilly, hoje na casa dos 60 anos e que tinha 16 quando o CGBG foi fundado.

Tímido, de fala calma e voz aguda, com um forte sotaque novaiorquino que se acentua quando se inflama, Mark é muito parecido fisicamente com o pai, mas as semelhanças param por aí. “Fico puto com quem levou o CGBG a sério demais. O que meu pai fez não foi tão importante quanto quem construiu e cuidou do lugar com ele, como minha mãe, por exemplo”, desabafa o filho. “O lugar não era importante e sim as pessoas que passaram por lá. Não entendo quando você diz que a imagem do meu pai foi prejudicada com o filme sobre o CBGB. Fizeram dele um cara muito mais legal do que ele realmente foi”. Depois de ouvir tal resposta para minha primeira pergunta, senti imediatamente que tudo o que foi escrito acima corria o risco de ser jogado fora.

 Mark ainda é profundamente afetado pela morte de sua mãe, Karen Kristal, em maio de 2014. Um sentimento normal, já que isso aconteceu apenas há cinco anos. Tudo piora ao relatar como a situação era degradante: Karen morreu quase esquecida em um leito do NYU Lagone Medical Center, sofrendo com a desídia dos médicos e sem recursos para buscar um tratamento mais adequado.

 Para surpresa de todos, Kristal deixou uma herança de mais de três milhões de dólares, dinheiro esse que Mark e Karen não viram a cor graças a Lisa. De acordo com o irmão, ela – que é advogada – obrigou a então senil senhora a passar para ela a propriedade da empresa Sareb Restaurant Corp, proprietária do CBGB. A saber, Sareb é uma aliteração de Sarah Rebecca, nome de batismo de Karen Kristal.

“Minha mãe era a verdadeira dona do CBGB. Foi com o dinheiro dela que o bar foi comprado e montado. O nome dela estava na licença para vender álcool, ela criou e pintou o logotipo do bar na entrada, e era ela quem apartava as brigas entre os Hell’s Angels que iam ao bar para arrumar confusão. O pessoal tinha mais medo dela do que dos seguranças”, conta Mark. Segundo ele, Karen fez tudo com a promessa de Kristal de que eles repartiriam todos os ganhos e seriam co-proprietários. Mais surpreendente ainda é que Karen e Kristal já estavam divorciados quando o CBGB foi fundado.

 A “Sra. Kristal” jamais foi mencionada ou recebeu algum agradecimento por parte de qualquer uma das bandas que iniciaram a carreira no bar. Nem mesmo por aqueles músicos dos quais ela cuidava dos ferimentos após tomarem garrafadas por serem ruins demais no palco, como os Ramones, por exemplo. Ninguém fez shows para levantar fundos para seu tratamento ou brigaram com Lisa por ter abandonado a mãe na senilidade.

 Igualmente surpreendente é o fato de que o CBGB não fechou muito antes de ser o que se tornou por conta dela em pelo menos duas ocasiões. A primeira foi quando, sozinha, enfrentou a Prefeitura de Nova York, impedindo o fechamento do bar por perturbar os vizinhos com música muito alta, chegando posteriormente a bancar o isolamento acústico do local. A segunda, quando para evitar a falência do bar, disse a Kristal para deixar de aceitar bandas covers e colocar alguns daqueles moleques que tanto enchiam o saco para tocar, evitando assim ter que pagar as altas taxas da ASCAP, o equivalente americano do nosso ECAD). Sim, é isso mesmo: para economizar uma grana, Karen foi fundamental para o surgimento do movimento punk.

Mark está certo: é melhor não levar a lenda tão a sério. As pessoas que a construíram são infinitamente mais importantes.