Lembro muito bem do momento em que soube que Malcolm Young havia sido internado por conta de uma demência. Eu estava no meio da leitura do sensacional livro AC/DC: A Biografia, escrita pelo talentoso e incansável pesquisador Mick Wall.

Na época, deixei de escrever a respeito do que aconteceu com ele e mesmo a respeito de sua morte porque as informações eram muito vagas e, principalmente, eu esperava que o próprio livro fornecesse algumas respostas a respeito da degradação mental daquele que sempre foi o líder incontestável da banda, ao contrário do que pensam 99,7% dos fãs. Sim, Angus Young sempre foi – e ainda é – a figura emblemática do grupo, mas quem mandava mesmo era o irmão.

Mesmo nos dias de hoje, basta uma leitura atenta ao que escreveu Wall para se perceber nitidamente as razões que levaram Malcolm a ser internado e sua morte tempos depois. Tantas foram as coisas erradas que ele fez em relação às pessoas que trabalharam na equipe da banda e tamanha era a tirania empregada por ele na condução dos negócios e da música do grupo que tudo isso deve ter provocado um estrago considerável nos miolos do sujeito. Chega-se a essa conclusão depois que o escritor revela, em mínimos e preciosos detalhes, como funcionavam – e ainda funcionam – os bastidores da condução de uma carreira brilhante vista por fora, mas repleta de mágoas, brigas, ofensas, trapaças, falta de consideração e respeito, desmandos, atitudes equivocadas e mais uma série de histórias incríveis e tristes ao mesmo tempo quando observadas nas entranhas do grupo.

O livro se torna ainda mais interessante quando sabemos que o autor tentou centenas de vezes conversar com algum integrante do quinteto, foi simplesmente ignorado em todas elas e resolveu então entrevistar todos aqueles que, de alguma forma, trabalharam com os caras. Citando declarações dos membros do grupo em outras e raríssimas entrevistas, Wall montou um quebra-cabeças em que nada foi deixado de lado e torna muito claro que o AC/DC foi durante décadas muito mais que uma banda: foi um verdadeiro clã escocês, fechadíssimo a qualquer um “de fora”.

O autor, mais uma vez, trouxe um extenso relato que passa muito longe da “babação de ovo” retardada dos fãs. No livro estão descritas em detalhes como muitas atitudes tomadas dento da banda dependeram exclusivamente do humor – ou falta dele – de Malcolm. É óbvio que não irei contar aqui a verdadeira história de como surgiu o uniforme escolar de Angus, do motivo que levou Malcolm a ordenar que Angus ficasse responsável pelos solos, mesmo sendo melhor guitarrista que o irmão mais novo, e muito menos contar como o vocalista Brian Johnson foi escolhido para ocupar o posto do falecido e lendário Bon Scott. Não quero provocar a ira de quem ainda não leu e tem ódio de quem solta “spoilers”…

Aliás, é Scott o personagem principal do livro. É impressionante verificar a importância que ele teve na ascensão da banda – e mesmo depois de morto! -, principalmente por ter se adequado à postura “nós contra o mundo” que sempre permeou as atitudes turronas e quase inflexíveis dos irmãos Young. Também impressiona a maneira como empresários e alguns músicos que passaram pela banda foram desrespeitosamente demitidos ao longo de quatro décadas de carreira. Chega a ser inacreditável saber que se não fosse por um determinado personagem – não vou contar para não estragar a saborosa história -, a banda não mais teria existido depois que o álbum High Voltage foi lançado tardiamente nos Estados Unidos em 1976 como uma coletânea dos dois primeiros discos australianos – TNT e High Voltage – e acabou sendo um fracasso de vendas, a ponto de ter sido demitida da gravadora Atlantic. O declínio dos caras depois do cataclísmico sucesso do álbum Back in Black e o renascimento causado pelo sucesso das incessantes turnês em estádios lotados são contado em detalhes tão minuciosos quanto estarrecedores.

Sem sacanagem: este é daqueles livros que não se consegue parar de ler…