Você tem ideia da envergadura musical de um sujeito que não apenas foi uma das principais influências de ninguém menos que Miles Davis e Quincy Jones, mas que também chegou a dar aulas informais de jazz para esses dois monstros? Você acha sinceramente que a obra de uma sumidade de tal porte pode ser ignorada? Acredita que a morte dele em 2015 foi tratada como uma mera nota de rodapé de página dos grandes portais de notícias?

Infelizmente, as respostas a estas perguntas foram “não”, “não” e “sim”. Foi justamente isso o que aconteceu em relação ao genial trompetista Clark Terry, uma das maiores figuras da história do jazz mundial, cuja extensa e maravilhosa obra sempre foi solenemente ignorada no Brasil, ficando restrita somente ao universo dos admiradores mais profundos do gênero. Bem, eu não fico surpreso que isso aconteça em um país “juntos e shallow now” como nosso…

É uma pena que o descaso em relação a ele e sua obra seja o resultado final da indiferença que o público brasileiro em geral tem em relação ao jazz, considerado hoje em dia como “música de gente rica e esnobe” por bucéfalos com a capacidade intelectual de um tijolo molhado. Por isso, a genial música que Terry espalhou pelo mundo em mais de 70 anos de carreira – sim , é isto mesmo o que você acaba de ler! – deixou de ser apreciada por gerações de brasileiros pela fatal mistura de preconceito e ignorância, um amálgama imbecilizante que parece ter se tornado o produto mais comum de nossa sociedade.

Tenho a pretensão de pensar que você, que está lendo estas linhas neste exato momento, possa ter a curiosidade de ir atrás dos trabalhos desse músico notável, que integrou as orquestras dos lendários Duke Ellington e Count Basie durante as décadas de 40 e 50, e foi o primeiro negro a integrar regularmente uma banda de um programa da televisão americana  – no caso, o famoso The Tonight Show  -, na qual tocou de 1962 a 1972. Tenho a esperança de que você vá atrás dos ótimos álbuns que ele gravou como solista – como Serenade to a Bus Seat (1957), In Orbit (1958, ao lado do mitológico pianista Thelonius Monk), The Happy Horns of Clark Terry (1964) e It’s What’s Happenin’ (1967), entre dezenas de outros – e as maravilhas que tocou ao lado de figuras lendárias, como o pianista Oscar Peterson, o saxofonista Sony Rollins, o trompetista Dizzy Gillespie e tantos outros. Se pelo menos um de meus leitores fizer isso, meu trabalho em escrever este texto já terá valido a pena.

Selecionei abaixo alguns “aperitivos” para você degustar a obra genial e elegante de Terry. Não desperdice!