É claro que a esta altura você há deve ter assistido aos dois vídeos que publiquei em meu Canal no You Tube a respeito do Neil Peart – eles podem ser assistidos aqui e aqui . Só que há muito a ser falado a respeito dele e da banda, da maneira como recebi o impacto da entrada dele no trio em 1975 e de como isso afetou a minha vida musical desde então.

Primeiro, você tem que saber que não era fácil ser roqueiro na primeira metade dos anos 70. Na verdade, creio que nunca foi. Antes, ficando à margem da sociedade careta, tratado muitas vezes como um pária, a quem só se dirigiam palavras discriminatórias e olhares de reprovação; hoje, sendo alvo de chacota por parte de gente mais “mudéeerrnna”, antenada com as últimas novidades, que acha lamentável que ainda existam pessoas que gostem de Slade e Status Quo com tanta ‘coisa bacana’ rolando em programas como “Só Toca Pop”, “Faustão”, Luciano Hulk e outras merdas televisivas. Entendo perfeitamente o que sente um moleque roqueiro de 15 anos de idade no meio de uma escola repleta de gente “nada a ver”. Afinal de contas, eu também já fui um deles…

Um pouco desse sentimento me veio à cabeça quando reouvi hoje pela manhã um dos álbuns mais incríveis e surpreendentes que tive o prazer de ouvir e carregar comigo a vida inteira.

Em 1975, meus quinze anos de idade já tinham sido literalmente abalroados por uma série de álbuns antológicos – os cinco primeiros do Black Sabbath e do Led Zeppelin, todos os discos do Deep Purple com o Ian Gillan e o Roger Glover, mais o Burn com o David Coverdale e o Glenn Hughes, só para citar alguns -, dentre os quais o disco de estreia de um trio canadense chamado… Rush. Quando eu e um amigo descobrimos na coleção do irmão dele o álbum de capa branca, com o nome do grupo escrito em rosa, e com aquelas canções pesadíssimas para aqueles tempos, eu simplesmente enlouqueci.

Foi então que, um belo dia, ao entrar em uma das lojas de discos que havia em meu bairro, deparei-me com aquela coruja imensa a estampar a capa do segundo disco do Rush, Fly by Night. Juntei todas as notas amassadas que tinha em meus bolsos e comprei na hora, sem ouvir. Tinha a certeza que, ao colocá-lo em minha vitrola, receberia de volta a mesma enxurrada de peso na bateria de John Rutsey, as distorções nas guitarras de Alex Lifeson e a voz gritada e o baixo pulsante de Geddy Lee.

Cheguei em casa e fui direto para o meu quarto. Botei o álbum para rodar e… Meu queixo caiu tanto que quase esmagou os meus pés.

A primeira reação que tive ao ouvir a faixa de abertura, “Anthem”, foi a de ter em minha frente um velho livro conhecido, só que escrito em marciano. Tudo era familiar e, inacreditavelmente, tão diferente, que cheguei a pensar por alguns segundos que alguém havia trocado o meu disco no ônibus enquanto eu voltava para casa. A bateria soava tão complexa, com tantas levadas e viradas que eu jamais tinha ouvido antes, que eu nem entendia como aquilo era tocado. Foi então que olhei a contracapa do álbum e vi que Rutsey não estava lá. No lugar dele, em uma imagem preta e branca desbotada, tinha outro sujeito, do qual eu nunca tinha ouvido falar: Neil Peart. Quando a canção chegou ao fim, tive a sensação que meu cérebro havia saltado de paraquedas e se encaixado novamente dentro da minha cabeça…

 

Uma a uma, as canções iam se sucedendo e eu ficava cada vez mais boquiaberto. Algumas canções até poderia ter sido incluídas no álbum de estreia, como “Best I Can” e “Beneath, Between & Behind”, mas em cada uma delas havia tantos detalhes diferentes de levadas rítmicas e dinâmicas que até hoje não estou bem certo disso. Outras, como “By-Tor & the Snow Dog” e seus mais de oito minutos de duração, entortaram a minha cabeça e a de meus colegas de geração porque não entregava a sua definição. Era hard rock? Era rock progressivo? Ou era os dois? Ou não era nada disto? E ainda tinha pequenas maravilhas para tocar nas rádios da época, como a faixa título, o folk rock “Making Memories” e a linda balada “Rivendell”, cuja letra só entendi quando, anos mais tarde, li a trilogia O Senhor dos Anéis. Para terminar, o único momento que lembrava a influência do Led Zeppelin que inundava o disco anterior, a espetacular “In the End”.

 

 

 

 

 

 

Quando terminei de ouvir todas as faixas, eu era um moleque diferente.

Durante anos fiquei matutando, tentando entender como a entrada de um único integrante – e baterista! -, havia mudado tanto o som de uma banda. Com o tempo, percebi que Peart também havia escrito quase todas as letras do álbum, que apresentavam um conteúdo muito diferente daquele exibido no disco de estreia. Havia poesia ali. “Anthem”, por exemplo, era baseada nos textos de uma das escritoras favoritas do batera, a russa Ayn Rand, que mais tarde também influenciou as letras que Peart escreveu para o álbum, 2112, de 1976.

Para “piorar” ainda mais, tinha a produção enxuta de Terry Brown, que deu a todos os instrumentos timbres cristalinos e incrivelmente bem definidos. Até hoje, Fly by Night é um exemplo de disco bem gravado e mixado, servindo de referência para álbuns de grupos bem famosos, como o Foo Fighters, por exemplo.

O que os caras fizeram dali para frente fez com que dormissem em berço esplêndido, eternizados como músicos e compositores de primeira grandeza em meu coração.

Para quem ainda não conhece Fly by Night ou até mesmo os outros álbuns do Rush, só me resta lamentar a oportunidade perdida nas últimas décadas. Você poderia ter tido uma vida e tanto… Que tal agora correr atrás do tempo perdido?