Existem certos casos de associações imediatas tão fortes entre algumas palavras – sejam elas nomes, termos ou simplesmente uma sucessão correta de letras – que a gente tem a impressão que uma não nasceu sem a outra. No exato momento em que escrevo este texto mal ajambrado, uma destas associações não me sai da cabeça: “blues”, “Brasil” e “André Christovam”.

Tal fato acontece porque tempos atrás foram relançados no Brasil três discos absolutamente fundamentais para a existência de uma cena do gênero em nosso País, todos criados e gravados pelo extraordinário guitarrista: Mandinga (1989), The 2120 Sessions (1991) e Banzo (2002). De quebra, teve mais um, esse até então inédito, Live in POA with Hubert Sumlin, gravado em 2002 por André e seu trio ao lado de um de seus ídolos. Para quem não sabe, Sumlin foi o guitarrista do espetacular disco The London Howlin’ Wolf Sessions, do lendário bluesman Howlin’ Wolf, e o cara que teve fundamental importância para que André resolvesse ser guitarrista. E antes que você se pergunte, eu respondo: existem outros dois álbuns, A Touch of Glass (1990) e Catharsis (1996), que deveriam receber também um relançamento caprichado, e um disco ao vivo inédito gravado juntamente com o lendário Taj Mahal.

Se alguém uma vez disse que “o samba é a tristeza que balança”, isso também vale muito para o blues e até mesmo para o rock. Também é evidente que o blues nacional tem outros nomes de idêntico valor, como Nuno Mindelis, e grupos como Blues Etílicos, Big Allanbik e tantos outros, mas André foi um dos primeiros, juntamente com outra figura primordial – o falecido Celso Blues Boy – a apostar em uma linguagem nacional para um gênero absurdamente identificado com a cultura americana.

Tenho certeza de que isto só foi possível porque André foi beber diretamente da fonte. Fez aquilo que 1980 beirava a insanidade para um moleque que morava no Brasil: vendeu tudo o que tinha e se mandou para os Estados Unidos para estudar guitarra!  Voltou um ano depois não apenas como o primeiro brasileiro a se formar no prestigiado GIT (Guitar Institute of Technology) de Los Angeles, mas também com as lições de dois de seus mais famosos professores, Pat Martino e Robben Ford, e de seu “patrão”, o mitológico e doidaço Albert Collins, de quem André foi roadie. Os três  foram fundamentais para que o cérebro e o coração de André voltassem embebidos no genuíno blend de blues, rock, rhythm n’ blues e soul.

Nos casos de Mandinga e Banzo, com todas as letras em português, o guitarrista mostrou outra coisa essencial além de sua técnica irrepreensível como instrumentista: métrica e colocação perfeita das palavras dentro de cada compasso. Acabou aqui aquele velho papo “não dá para fazer blues cantado em português”. André mostrou que não só dava, mas que o resultado poderia ficar muito bom. E como ficou! Poucas pessoas no Brasil teriam capacidade para compor algo tão genial quanto “Genuíno Pedaço de Cristo”, uma das melhores faixas de Mandinga que naquela reedição surgiu também como uma bonus track em revitalizada versão com Lenine nos vocais. Ou dar uma sacaneada tão bem humorada nos padrões estéticos da época como a que fez na divertida “Confortável”.

 

 

Se André conseguiu vencer a barreira da língua para criar seu blues personalíssimo, gravar The 2120 Sessions cantando em inglês foi “mamão com açúcar”, ainda mais contando com a extraordinária “cozinha” da banda do genial Buddy Guy – o baixista J.W. Williams e o batera Jerry Porter – e a voz portentosa de Andrew Odon. Um discaço absurdo de bom!

 

Um biscoito para finos paladares é o disco “live” gravado ao lado de Sumlim. Logo de cara, uma ótima sacada que só velhos fanáticos por LPs como eu vão entender: a embalagem imita os célebres bootlegs (“discos piratas”) dos anos 70 lançados pelo ‘picaretaço’ “selo” Trade Mark of Quality, que tinha em seu… ahn… “catálogo” inúmeros discos gravados ao vivo de gente que ia de Frank Zappa a Bob Dylan, passando por Led Zeppelin, The Who, King Crimson, Rolling Stones e quem mais você pensar daquela época. Nesse disco, André e seu trio são os parceiros perfeitos para que o velho guitarrista apresente um repertório matador, com uma gravação de excelente qualidade.

 

 

Um incrível contador de “causos” do meio musical – conversar com ele é garantia de gargalhadas por horas, ainda mais se as histórias versam a respeito dos encontros com grandes astros internacionais e dos tempos em que tocou nas bandas de Rita Lee e Kid Vinil -, André Christovam se cansou da pouca atenção que o brasileiro dá a seus próprios músicos, se mandou do Brasil e hoje mora na Escócia, onde continua a tocar com um novo trio e a ministrar aulas valiosíssimas de seu adorado instrumento. Ele fez a parte dele ao mostrar porque é admirado por gente do porte de Carlos Santana, B.B. King, Buddy Guy, Johnny Winter e tantos outros. O resto é com você…