Jornalista, historiador, crítico e pesquisador musical paulista, José Ramos Tinhorão morreu no terceiro dia de agosto em que vivemos hoje, vitimado pela pneumonia e por complicações decorrentes de um AVC. Grande parte de seus 93 anos foi vivida escrevendo algumas obras importantíssimas para história da Música brasileira – como o fundamental livro Pequena História da Música Popular: da Modinha à Canção de Protesto, lançado originalmente em 1974 e que só fui me meter a ler décadas depois -, mas também em criar/alimentar lendas a seu respeito e, mais do que tudo, em colecionar inimigos no meio musical brasileiro.

Era detestado por uma fila infinita de artistas. E com razão em inúmeras ocasiões em que se meteu a falar mal de discos e da própria obra de gente que eu mesmo sempre considerei como brilhante, como Tom Jobim, João Bosco, Gilberto Gil, Caetano Veloso e tantos outros. Tudo o que escrevia e dizia destilava um veneno incrível, muitas vezes explícito. Para mim, seu exercício incansável de execrar a MPB era muitas vezes hilário em seu azedume. Suas convicções a respeito do que seria a “legítima” música brasileira o levaram a desancar a bossa nova como um “jazzinho pasteurizado”.

Lembrei muito de seus textos na primeira metade dos anos 90, quando comecei a carreira jornalística na qual estou até hoje. Não pelo nacionalismo radical quando se dedicava a vociferar contra a “música americanizada” que dizia ter se instalado no Brasil, mas pela contundência e embasamento com que imitia suas opiniões, algumas delas absurdas e que beiravam a perversidade, mas que sempre me faziam pensar a respeito, pois todas eram muito bem fundamentadas.

Não poupava ninguém, mesmo que fossem ícones da MPB e do samba, universos sonoros em que a maioria dos críticos pisa em ovos e cheios de dedos. Aliás, foi exatamente esse sentimento que carrego até hoje quando eu mesmo solto as minhas humildes opiniões por aí, sem me importar em desafetos em nome da liberdade de escrever o que eu penso a respeito de canções, álbuns, artistas e ídolos de todas as vertentes musicais que você imaginar. Lições do velho Tinhorão que aprendi na hora de falar e escrever a respeito de outros assuntos também. Sim, ele foi um de meus professores mesmo discordando totalmente dele em quase tudo.

Até hoje tento encontrar a biografia dele, Tinhorão – O Legendário, escrita por Elizabeth Lorenzotti e publicada em 2010, mas nunca encontrei em minhas andanças pelos sebos. Também adoraria ter tido a oportunidade de xeretar a imensa coleção de 13 mil LPs que ele tinha e que foi adquirido em 2001 pelo Instituto Moreira Salles, juntamente com a sua biblioteca de quase 15 mil livros. Não deu.

Obrigado, professor!