Ariano Suassuna e Quinteto Armorial me ensinaram a ouvir um “outro Brasil”

Tenho que fazer uma mea culpa antes de prosseguir com este texto: nunca tive a curiosidade de conhecer a obra completa de Ariano Suassuna. Sim, eu sei, falha grave de minha parte.

De certa forma, tenho certa desculpa para isto: para quem era moleque nos anos 60 como o tiozinho aqui, era muito difícil tomar contato com a literatura de determinados escritores brasileiros. Principalmente para quem não tinha a menor ideia do que acontecia no Nordeste brasileiro naqueles tempos, em que o único contato possível era conhecer os times de futebol de cada Estado daquela região que participavam do Campeonato Brasileiro. Na escola, líamos autores brasileiros do time de Machado de Assis. Literatura contemporânea? Praticamente nada.

Invejo quem tomou contato com a obra literária de Suassuna. Meus caminhos em busca de ótima literatura na adolescência no início da década de 70 foram outros, muito pouco nacionais. Meus livros favoritos naqueles tempos foram escritos por autores estrangeiros – Julio Verne, Mika Waltari, Truman Capote e Agatha Christie, entre tantos outros -, graças à obstinação de minha querida e saudosa mãezinha, a lendária Dona Irene. Foi ela quem me abasteceu com esse tipo de literatura ao comprar coleções de grandes clássicos que eram vendidas em bancas de jornais. Nunca cheguei perto da seara de gente como Suassuna. Meus interesses eram outros…

Eu mesmo só passei a conhecer o que se fazia no Nordeste em termos musicais em 1974, quando ouvi o primeiro e sensacional álbum de Zé Ramalho. A conexão que aquele som tinha com o folk rock logo me tornou um comprador voraz de grandes artistas nordestinos dos anos 70, como Alceu Valença, Ednardo e… Fagner. Sim, acredite: os primeiros discos dele são excelentes; depois é que a sua obra deu uma ‘degringolada’ forte. Foram eles que abriram minha cabeça para ouvir grupos como Ave Sangria, Odair Cabeça de Poeta e o Grupo Capote, Quinteto Violado e tantos outros. Daí para os maravilhosos álbuns do Quinteto Armorial foi um passo bem pequeno…

 

O primeiro LP do grupo – composto pelo violinista Antônio Nóbrega, o flautista Egildo Vieira, o violeiro Antônio Madureira, o percussionista Fernando Barbosa e o violonista Edison Cabral – que comprei foi o sensacional Do Romance ao Galope Nordestino, de 1974. Depois, demorei anos para encontrar os outros não menos brilhantes Aralume (1976), Quinteto Armorial (1978) e Sete Flechas (1980). A sonoridade de cada um desses álbuns me pegou de um jeito que logo percebi que havia uma conexão entre a música nordestina e os longínquos sons árabes de uma época medieval.

Fui atrás dessa história em tempos em que não havia internet. Pesquisando em bibliotecas – locais que hoje, infelizmente, foram abandonados por uma geração que tem dificuldades em descobrir quantos caroços tem um abacate -, entendi a importância da música da antiga Península Ibérica. Um grande mapa musical se formou então em minha jovem mente nos anos 80, com diversas rotas marcadas com as tintas coloridas rock folk progressivo, da música folclórica do Nordeste, das composições com fortíssima influência erudita, dos “papos cabeça bicho-grilo”… Para meus amigos essencialmente roqueiros, meu gosto musical naqueles tempos era encarado como uma possessão alienígena.

Bem, certamente a maioria das pessoas que lê estas linhas escritas com letras tortas deve se perguntar: “O que essa porra de história toda tem a ver com Ariano Suassuna?” Muito simples: ele foi o mentor de todo um “Movimento Armorial”, do qual o meu adorado Quinteto era um “braço musical” da coisa toda, que se ramificava em peças, textos diversos e até mesmo o apadrinhamento de outros artistas das mais diversas áreas. Só então consegui ir atrás de um livro de Suassuna…

Encontrei o famoso Auto da Compadecida, que li com a devida atenção. Apesar de ter gostado muito da obra, não tive a iniciativa de ler outros de seus livros. Minha cabeça estava voltada a tantas coisas diferentes na época que acabei deixando de lado, mas não deixei de assistir com imenso prazer a sensacional série baseada no livro que a Globo exibiu no final dos anos 90. Trabalho de primeira de todos os envolvidos.

Foi o resgate de toda esta imensa colcha de retalhos tão bem cerzida que norteou o surgimento do mangue beat décadas depois. Era o tal “Movimento Armorial” reconectado com um mundo tecnológico e muito mais urgente em suas aspirações artísticas.

Suassuna morreu anos atrás, mais precisamente em julho de 2014. Espero que tenha tido uma vida feliz e uma morte sem dor. Foi o desejo sincero de quem teve na maravilhosa música do Quinteto Armorial uma porta de entrada para um universo muito maior do que os limites geográficos do Nordeste brasileiro.

Ouça abaixo todos os sons com a máxima atenção. Como eu, você jamais será o mesmo “brasileiro” depois disso…

 

 

2018-11-21T17:36:58+00:00

8 Comments

  1. Sandro Silva 22 de novembro de 2018 at 14:22 - Reply

    Baita texto, muito obrigado.

  2. Dennis R.C. 22 de novembro de 2018 at 15:59 - Reply

    Caramba, não é que há uma familiaridade com a música árabe mesmo? Que instrumental lindo.

    Valeu Régis, dica preciosa!

    • Regis Tadeu 23 de novembro de 2018 at 16:06 - Reply

      Ouça os discos do grupo com atenção máxima.

  3. Henrique Bordignon 24 de novembro de 2018 at 11:46 - Reply

    Tchê, a vantagem de apreciar as colunas que o Regis escreve aqui é justamente a qualidade do texto… O cara já tem o interesse de ouvir determinada banda e quando se depara com uma resenha dessa, já quer acessar o Youtube ou o Deezer e dar um play na discografia pra saciar a curiosidade logo…

    Que Deus continue a te iluminar e que vc continue a nos brindar com as suas opiniões sagazes e o seu humor ácido de sempre!!

    Parabéns, Régis

    • Regis Tadeu 24 de novembro de 2018 at 12:52 - Reply

      Obrigado pelas palavras gentis, Henrique!

  4. Pablo Melo 26 de novembro de 2018 at 19:08 - Reply

    Boa tarde Regis!

    Apesar de ser xenófobo, considero Ariano Suassuna um baita escritor com seus regionalismos.

    Para mim, o melhor livro do autor é o Auto da Compadecida. A parte mais legal e hilária é o capítulo do gato que descome dinheiro, onde os malandros Chicó e João Grilo aplicam um golpe enfiando moedas no fiofó do pobre bichano.

    Um grade abraço!

  5. Alan rezende gomes 28 de novembro de 2018 at 06:54 - Reply

    Esse som mudou totalmente minha percepção sobre o Nordeste e sua música.
    Considero, nessa seara, o Elomar um equivalente ao Suassuna – porém menos popular e muito menos acessível. Mas fazendo música e poesia – além de autos, roteiros, óperas e tantos outros. Mesmo antes desse braço musical (o Quinteto), Elomar já compunha dentro de uma estética similar. O movimento tem como data de fundação oficial em 1970, Elomar, por essa época, já possuía um relevante cancioneiro e já havia lançado um compacto (hoje raríssimo) com as canções O Violeiro e Canção da Catingueira.
    Suassuna e ele eram malungos companheiros, que tiveram a mesma “epifania” estética, e trouxeram a uma cultura genuinamente brasileira ares de erudição, coisa tão cara a um povo desassistido e considerado ignorante até mesmo em suas expressões artísticas.

    Ótimo texto, Régis! Obrigado!

    • Regis Tadeu 28 de novembro de 2018 at 13:27 - Reply

      Obrigado pelo elogio, Alan.

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