Para o público em geral ele sempre será “A voz do Led Zeppelin”. Um título que costumava aparecer com frequência em todo cartaz de divulgação de suas apresentações em países pouco afeitos ao rock, como é o caso do Brasil em termos de massificação popular. Afinal de contas, é preciso para dar uma noção àquela parcela de público “sem noção”, que só conhece a extinta banda britânica quando ouve “Stairway to Heaven”. Só que nada é tão distante desse rótulo que a própria voz de Robert Plant e, principalmente, os arranjos de cada uma das canções que o vocalista sempre vinha apresentando nas últimas décadas. Fiquei pensando nisso ao rever um de seus mais recentes shows em um canal da TV a cabo e, principalmente, ao relembrar a ESPETACULAR (com maiúsculas mesmo) apresentação que ele fez anos atrás no Espaço das Américas, aqui em São Paulo.

É muito legal sacar que a partir do primeiro instante em que a figura de Plant costumava surgir no palco, antes mesmo dos acordes da primeira música, estava ali um homem muito diferente daquele vocalista de cabelos dourados e figura mítica dos anos 70. Com o rosto enrugado e cabelos em desalinho, Plant sempre nos mostrou, com um enorme sorriso no rosto, que ele mesmo nunca deu a mínima importância para o que representou como ícone de adoração por parte de pelo menos duas gerações. Muito menos que precisava se preocupar com a atenção da plateia, já que seu carisma beira o estratosférico desde o final dos anos 60.

Bastava a música começar para cairmos na real: Plant nunca deixou de nadar contra a corrente daqueles que sempre esperavam a sonoridade mais rústica e visceral de sua ex-banda. Nos anos mais recentes, a mistura de levadas eletrônicas com ataques enfurecidos e cortantes sempre transformaram suas canções em um monstro com duas cabeças em termos de referências – Massive Attack e Queens of the Stone Age -, mas cujo coração musical estava voltado para a África. E Plant fazia questão de fazer essa “bagunça” na cabeça dos fãs medíocres sem esquecer a reverberação sônica eletrônica do mundo ocidental.

Se a voz dele, obviamente, não atinge mais as alturas em termos de frequências, a exploração experimentalista de seu som transformou seus shows em sessões de hipnose coletiva. Lembro que era simplesmente impossível desgrudar os olhos e os ouvidos do palco, ao mesmo tempo em que o meu corpo reagia com espasmos que poderiam ser considerados como uma “dança” pelos menos exigentes.

Plant sempre esteve acompanhado de uma banda de agrupamentos fenomenais de músicos, como o africano Juldeh Camara, uma mistura de Buddy Guy com Jean-Luc Ponty que simplesmente arrasava ao tocar dois instrumentos estranhíssimos: o riti, que parece um violino/rabeca, só que tocado com um arco e sem a flecha, e um kologo, que soa como um banjo dentro de um amplificador de guitarra. Com o apoio deles, o som de Plant se transformava em um imenso caleidoscópio multiétnico cultural de primeira grandeza.

Quando tocava as canções do Led Zeppelin – dependendo de seu humor, poderiam ser “Friends”, “Black Dog”, “Whole Lotta Love”, “Ramble On”, “Bron-y-aur Stomp”, “Going to California” e, claro, “Rock and Roll” –, Plant orgulhosamente desconstruía os arranjos, a ponto de só reconhecermos as mesmas quando as letras começavam a brotar da boca do vocalista, assim como costumava fazer um de seus ídolos, Bob Dylan. Foi como se dissesse à plateia “Ok, se vocês querem ouvir coisas da minha ex-banda, vai ser do meu jeito”. E isso valia para qualquer pérola de repertório alheio: lembro uma ocasião que só reconheci “Spoonful”, de Howlin’ Wolf, quando Plant mandou o refrão…

Fiquei pensando na maneira como Plant foi tremendamente corajoso a desconstruiu e reconstruiu seu próprio trabalho e, por que não dizer, sua carreira inteira, sem pensar um minuto sequer no desapontamento das pessoas que só vão a shows para gritar “urrrúuu” e tirar fotos para colocar nos “Instagrans da vida”. Ele sabe que o passado do Led Zeppelin será uma carcaça que terá que carregar para o resto da vida. Por isso, quando resolve agradar às plateias, é como se jogasse uns amendoins cheios de LSD para elefantes domesticados. Isso faz todo o sentido do mundo…