Depois de algumas semanas de trabalho intenso no meio da pandemia, finalmente encontrei tempo para voltar a escrever por aqui. Espero sinceramente que possamos voltar a estabelecer um contato mais frequente daqui em diante, já que ainda sou um daqueles “velhinhos atrasados” que pensa no blog ainda como uma forma de escapar das armadilhas das redes sociais para compartilharmos “conteúdo”, uma palavra que a cada dia valorizo ainda mais no meio da burrice generalizada em que vive o Brasil.

Entretanto, não sei se o fato de vivermos na maior “Era do Foda-se” que eu tenha testemunhado até hoje faz com que as minhas palavras neste texto seja suficiente para evitar o descolamento total e abissal de seus filhos em relação aos interesses do restante da sociedade e, principalmente, da mesma geração em que ele vive.

Fico grato em saber que boa parte dos meus leitores demonstra que estão aqui no blog para defender a educação de seus rebentos bem acima dos interesses dos ricos patrocinadores de “desinformação” musical e, por que não dizer de modo mais amplo, cultural. Posso parecer ingênuo, mas assim como acontece no meu Grupo Secreto do Facebook – cujo acesso você só consegue por intermédio da plataforma do Apoia-se clicando aqui – sinto que, com raras exceções, formamos um grupo de interesses mútuos. Que assim seja…

Foi por isso que resolvi indicar dois shows lançados há muito para que você assista com os seus filhos da maneira antiga: todo mundo no mesmo ambiente, assistindo pela TV ou pelo computador, você escolhe. Não faço ideia se estão disponíveis em plataformas de streaming ou nos “netflix” da vida, mas sei que foram lançados em DVD e Blu-ray. Caso você se interesse, vai ter que ir atrás exatamente como eu e tantos de minha geração fizeram e sem qualquer facilidade tecnológica moderna. Se vire. E ponto.

O primeiro deles é Alive in the Windy City, do Stone Temple Pilots, ainda do tempo em que a banda contava com doidaço vocalista Scott Weiland, falecido em dezembro de 2015. Em pouco mais de 90 minutos, a apresentação filmada em Chicago em 2010 funciona como um retrato da grande tigela que estava sendo untada na época para que o quarteto, que havia voltado à ativa poucos meses antes, colocasse as canções que entrariam posteriormente no bom disco batizado com o nome do quarteto e que foi lançado em 2010. Pelo resultado do que se vê e ouve aqui, a massa rendeu bem dentro do forno.

A banda tinha voltado bem, tocando com desenvoltura e evidente entrosamento um repertório bem equilibrado entre as então músicas novas e os grandes hits do passado, como “Vasoline”, “Big Empty”, “Creep”, “Plush” e “Interstate Love Song”, embora a ausência de “Big Bang Baby” seja uma falha grave para quem gosta do quarteto.

As performances individuais eram muito boas. Weiland, longe daquela magreza típica de quem era viciadaço em heroína, cantava a plenos pulmões e teve em cima do palco a presença carismática que poucos podem almejar atém mesmo nos dias de hoje. O guitarrista Dean DeLeo demonstrava extremo bom gosto na escolha de timbres, enquanto seu irmão Robert mostrava porque sempre foi um bom baixista e uma figuraça em cima do palco, formando uma “cozinha” rítmica bem azeitada com o eficiente baterista Eric Kretz. Nada como uma boa vivência sonora para ajudar a ficar bem musicalmente no palco, algo que hoje em dia é impossível praticar por causa da pandemia. A qualidade de áudio e imagens é boa e, como bônus, há uma entrevista meio genérica, que só sai do lugar comum quando os caras explicam como funcionava o método de trabalho do grupo na hora de fechar os arranjos.

 

 

 

O outro show que recomendo para essa integração com seus filhos é Live at Montreux 2008, do The Raconteurs e por um bom motivo: existem poucos músicos nos dias atuais que buscam algo que não seja apenas o “arroz com feijão” em termos artísticos, saindo um pouco fora daquilo que todo mundo já fez e do que é óbvio de se fazer em uma situação em que impera a falta de ousadia, e um desses caras é Jack White. Depois de encerrar a carreira do White Stripes no auge, ele vem tentando pelo menos convencer e, se possível, surpreender a quem duvidava de sua competência musical.

Assistir aos 100 minutos da apresentação é presenciar a postura em jogar fora o sucesso fácil, em escrever canções em diferentes formatos e não aceitar desafios. Jack se apresentou no tradicional festival suíço naquele ano com a sua banda The Raconteurs, que formou ao lado do bom cantor/guitarrista/compositor Brendan Benson e da “cozinha” do ótimo grupo The Greenhornes, formada pelo baterista Patrick Keeler e pelo estranhíssimo baixista Jack Lawrence, sósia da personagem Amy da série Big Bang Theory.

O que se ganha com a espontaneidade da música sincera e do jeito que ela sai da banda é algo que dificilmente deixa a memória de quem assiste a esse show, que mostrava uma etapa da turnê que promoveu o segundo disco da banda, Consolers of the Lonely, e que sedimentou o som cru, por vezes rude, que os caras não deixavam de fazer com surpreendente brilhantismo.

Ao vivo, você vai reparar que tudo ficou mais pesado e barulhento – no bom sentido, claro. Os melhores exemplos estão nas ainda mais vigorosas “Salute Your Solution” e a sensacional “Steady as She Goes”, que contrastam com a delicadeza rústica de “You Don’t Understand Me”, por exemplo. A versão que os caras fizeram de “Keep It Clean”, do Charley Jordan, é quase genial.

Vou dar uma colher de chá para você e postar abaixo o show na íntegra:

 

Bote a molecada da sua casa para assistir a esses dois shows ao seu lado. Responda a todas as perguntas que eles fizerem. Garanto que você vai se surpreender com a curiosidade deles…