Quem acompanha as minhas inúmeras atividades sabe que na semana passada eu publiquei um vídeo em meu canal no You Tube recomendando biografias de grandes nomes do rock e do pop que você obrigatoriamente tem que ler em 2019 – assista aqui . Desde então, tenho lido comentários de muita gente surpresa com a inclusão da autobiografia de um determinado astro: Rod Stewart.

Não sei ao certo o motivo de tal estranhamento. Talvez porque ele tenha se tornado alguém acomodado artisticamente aos olhos de um público que não conhece nada de sua história. Talvez porque ninguém saiba que ele foi muito mais significativo para a história do rock pop do que o sucesso de alguns de seus mais conhecidos hits, como “Da Ya Think I’m Sexy?” e “Baby Jane”. Ou ainda porque essas pessoas só conheceram o velho Rod por conta da sequência de álbuns de covers que gravou de 2002 a 2012. Para essas pessoas, só tenho a dizer o seguinte: é absolutamente irresistível saborear cada página de Rod – A Autobiografia, escrita em primeira pessoa e aparentemente sem o auxílio de um escritor. Bem, isto não deve ser verdade, mas deixa pra lá… O que importa mesmo é que o livro é simplesmente sensacional.

Poucas vezes li uma obra em que o autor se refere a si mesmo com tamanho sarcasmo e acidez. Não são poucos os trechos do livro em que Rod despeja altas cargas de deboche e humor negro contagiantes em cima de sua própria história, mas isso é apenas uma das características presentes na autobiografia. Há também uma honestidade em relação a tudo o que ele fez na vida pessoal e na carreira que chegam a ser tocantes.

Sempre achei que Rod era um sujeito “boa praça” mesmo por trás de toda a adulação que recebeu ao longo da carreira. Tal impressão foi reforçada quando adquiri um DVD da sensacional série Storytellers, que traz um artista perante uma pequena plateia, cantando, tocando e contando causos de sua vida. Recomendo muito a edição com Rod justamente pela maneira completamente “pé no chão” que ele mostra no palco intimista – além das maravilhosas canções, claro. Quer um exemplo disto? Veja a apresentação abaixo e repare o que acontece quando ele pede ajuda a um sujeito na plateia – uma figuraça! – para segurar a letra de “Ooh La La”:

 

Voltando ao livro, há capítulos incríveis e confissões surpreendentes. Rod desmente o mito de que foi coveiro e jogador de futebol profissional, conta de maneira sedutora a respeito das maravilhosas loiras que ‘traçou’ – casou com três delas -, revela inacreditáveis detalhes dos bastidores amalucados de suas turnês e de suas relações com Jeff Beck, com seus companheiros de Faces – notadamente com chapa Ron Wood -, com os amigos no show business como Elton John, com quem sempre mantive hilária “rivalidade”, e com a indústria musical em geral.

Sem qualquer autocensura, este divertido escocês de coração escreve abertamente a respeito do vício em cocaína, do medo de perder a voz por conta de um câncer, do plágio – “inconsciente”, segundo ele – que cometeu em “Da Ya Think I’m Sexy?” em cima do “Taj Mahal” do Jorge Ben e mais um monte de histórias deliciosas e surpreendentes, tudo contado com uma despretensão e leveza absurdamente cativantes. É daqueles livros que podem ser lidos inúmeras vezes com o mesmo prazer.

Mandou bem, Rod. Mandou bem…