Barry Miles viveu os anos 60 como um privilegiado e ainda escreve (muito bem!) sobre eles

Um dos melhores livros que li até hoje é Many Years From Now. Trata-se de uma extraordinária biografia de Paul McCartney, que conta toda a vida do cara até o momento em que os Beatles se separam. É item absurdamente essencial em qualquer biblioteca para quem gosta de música e deseja entender todo o contexto artístico da Inglaterra – e do mundo ocidental em geral – que rolou nos anos 60. E não tem a desculpa da barreira linguística, pois o livro foi lançado por aqui. Foi uma das indicações que fiz em um dos vídeos lá no meu canal no You Tube, “13 Biografias do Rock e do Pop para ler em 2019”, que você pode assistir aqui .

Lembrei a alguns leitores que comentaram o vídeo o autor desta maravilhosa biografia já esteve no Brasil anos atrás como convidado especial da Fliporto – Festa Literária Internacional de Pernambuco -, que rolou em Recife. O inglês Barry Miles, além de ter um estilo peculiar e delicioso de retratar a vida de seus biografados, sem omitir os “lados podres” das figuras em questão, tem uma grande virtude: ele viveu toda a atmosfera que cercou tais ícones. É por isto que Miles detém o seu olhar e seu trabalho nos 60, uma década que até hoje é objeto de centenas de estudos que tentam explicar como a “contracultura” e as inúmeras  transgressões sociais, políticas, comportamentais e, claro, musicais mudaram o mundo para sempre.

Miles vem se transformando em uma espécie de “velho sábio” quando o assunto é a referida época. Não é à toa que acabei de comprar outro livro dele que foi lançado no Brasil tempos atrás e que só agora consegui encontrar, Jack Kerouac: King of the Beats, que trata justamente da vida de um dos maiores artífices literários da contracultura mundial. Assim que terminar de ler, trarei minhas impressões para vocês aqui neste espaço.

 

É por isso que Miles foi, acima de tudo, um sortudo. Ficou sentado no chão inúmeras vezes dentro do mítico estúdio Abbey Road assistindo a um amigo chamado Paul McCartney gravar seus baixos em várias canções do Beatles, conviveu com intelectuais ‘malucaços’ como Allen Ginsberg e William Burroughs, viu o renascimento de toda uma cena musical inglesa que veio a varrer o mundo nas décadas seguintes… Também teve a sorte de ser proprietário de uma livraria em Londres naquela época, o que o fez guardar muitos documentos e toda uma papelada que manteve viva a sua memória daqueles tempos.

 

Saber que um cara como ele esteve no Brasil para repartir o seu conhecimento a respeito de um tempo tão importante para a Humanidade me faz pensar se estamos realmente aptos a vivenciar novamente uma época como aquela. Não em termos estéticos e sonoros, mas do ponto de vista revolucionário. Vejo com certo humor alguns ridículos desejos de muitas pessoas, várias delas com idades bem juvenis, que desejam ardentemente ter o poder de voltar a viver nos moldes dos anos 60. Bobagem. Uma coisa é você poder assistir a ascensão de artistas brilhantes como Jimi Hendrix e os Beatles, outra é participar de tudo aquilo com o ‘bundamolismo’ de hoje. Nada contra ter a nostalgia típica de quem olha para trás, mas fundamental é ter este sentimento sem deixar de olhar para frente.

Nunca esqueci uma frase que o próprio Miles disse em uma entrevista para um jornal inglês há alguns anos: “Não existe qualquer possibilidade de uma mudança em qualquer sociedade se não existirem pessoas que venham a quebrar as regras impostas por esta mesma sociedade”. Pense nisto…

2019-02-06T18:19:34+00:00

One Comment

  1. Kleber Peters 14 de fevereiro de 2019 at 18:08 - Reply

    “Não existe qualquer possibilidade de uma mudança em qualquer sociedade se não existirem pessoas que venham a quebrar as regras impostas por esta mesma sociedade”. Partindo deste pressuposto, mudança denota ruptura. O problema é que vivemos em um tempo onde, aparentemente, não temos regras para romper. Tudo é permitido, vide o lixo que recebemos no mainstream atualmente. São coisas impensáveis em outras épocas. Logo, não tem mais nada para ser quebrado. Vamos fadados a viver com os mesmos vícios e virtudes. Infelizmente.

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