Belchior cortou nossa alma em fatias bem finas

belchior

Ele morreu escondido. Longe de todos. Dos amigos, dos possíveis inimigos, talvez dos credores… Talvez nunca saibamos os motivos reais que levaram Belchior não apenas a abandonar a sua carreira, mas também a vida que levava, seus bens materiais e tudo o que representou em um importantíssimo capítulo da história da música brasileira e todos os tempos.

A riqueza poética de cada canção que ele gravou – mesmo aquelas bem ruins em termos de arranjos e timbres – é tão impressionante que jamais retruquei quando alguém dizia que “Belchior é o Bob Dylan brasileiro”. Sim, a comparação sempre foi pertinente. Cheguei mesmo a citá-la quando escrevi a respeito do 40º aniversário do sensacional álbum Alucinação, um texto que vou republicar aqui ainda esta semana.

A quantidade de letras sensacionais que ele escreveu parece infinita. Se a gente der uma olhada em 99,9% das letras de TODAS as canções brasileiras gravadas nos últimos dez anos e compará-las com meia dúzia de poemas de Belchior que ele transformou em música, a vontade que dá é sentar na beira da calçada e chorar de desgosto por horas a fio. E não estou me referindo aos grandes hits dele. Pode pegar qualquer música aleatoriamente. Cada verso dele parecia cortar nossas almas em fatias bem finas.

Poucas canções são tão rasgantes e desiludidas em sua autocrítica em relação ao fracasso de toda uma geração que se autodenominava “revolucionária” nos anos 60 quanto “Como Nossos Pais”, principalmente na extraordinária interpretação de Elis Regina. Todos nós nos sentimos impiedosamente desmascarados.

 

Era difícil compreender o que se passava na cabeça dele ou de onde vinha a sua eterna melancolia. Era como se dissesse “Você não precisa conversar comigo para me entender. Basta ouvir a minha música”. O que recebíamos de suas canções eram pensamentos desconcertantes e geniais, que filosofavam de uma maneira como jamais havíamos imaginado. Rejeitou a mídia e o show business em geral de uma maneira quase suicida em termos artísticos. Não tenho dúvida que grande parte do afastamento de Belchior se deveu ao fato de ele ter percebido as artimanhas da indústria da música e do entretenimentoAntes que fosse devorado e obrigado a fazer tudo aquilo que condenava em suas letras, Belchior resolveu pular fora.

Faça um favor a si mesmo e aos seus filhos: ouça atentamente cada palavra das canções que publiquei neste texto e vá atrás de todos os álbuns que ele lançou. Ouça junto com a sua família, como em uma reunião solene. Depois disso, tenho certeza de que a vida de todos vai melhorar e fazer sentido…

https://www.youtube.com/watch?v=RFibTS6GITI

 

https://www.youtube.com/watch?v=EhFOQxpM2Z8

 

 

35 respostas

  1. Belchior: Da”turma do Nordeste” com Raimundo Fagner para o panteão da Música Popular Brasileira!
    O que tem hoje registrado musicalmente fica na sombra da imensidão da obra deste”rapaz latino americano”!
    Obrigado,Belchior,por ter me ensinado que”a felicidade é uma arma quente”!E agradeço ao Regis por registrar estes levantes diante do que temos,atualmente,de tão execrável na musica brasileira e mundial.
    Longa vida a música boa.

  2. Muito bom Regis. Parabéns pelo texto. Colocou em palavras tudo o que pensava a respeito de Belchior. Que sutileza que escrevia suas músicas. Outro dia coloquei Paralelas no repeat do meu cd player e ouvi deitado de olhos fechados só imaginando as cenas como num filme. Me representou algo como as sensações ao assistir a um filme de Bergman. Obrigado!

      1. Gosto da maturidade de suas críticas, Régis. No entanto gostaria de fazer aqui uma pontuação sobre um momento de seu texto: desilusão, lamento e fracasso são, de fato, as marcas de “Como nossos pais”. Mas associar este estado de espírito a um “desmascaramento” termina por deslocar o tom de um lamento triste para o de um rancor denuncista, movimento claro no texto pelo uso de aspas em “revolucionário”. É uma interpretação que me parece constrastar equivocadamente com a dor pungente dos versos do bardo sobralense – inclusive porque ali o plural majestático coloca o eu lírico como alvo do próprio lamento, aspecto reconhecido quando você fala em “autocritica” -, que retira sua dor e sua força justamente do fato de ter vivido tudo sem máscaras. Se parte daquela geração se locupletaria depois, outra parte morreu por ideais irrevogáveis. Nesta outra parte se reconhecia o poeta e o exílio e busca de seus últimos anos de vida parecem tê-lo justificado. Se figuras como Olavo de Carvalho acham que os versos de Belchior são um cuspe na hipocrisia de uma geração revolucionária de sonhos vendidos (Cazuza surge uma geração depois e pôde deglutir isso melhor), suas aspas me parecem demonstrar um acordo com essa ideia.

        1. Discordo de TUDO que venha de Olavo de Carvalho. E também discordo de sua análise. Eu vivi aquela época e sei do que estou falando…
          Att,

          1. Também discordo do Olavo, Régis. Aliás, acabo de ler a notícia da morte dele no instante em que escrevo, sobre a qual tenho sentimentos ambíguos. Mas o que quero dizer é que o desabafo melancólico de “Como nossos pais” põe em relevo o sentimento de pertencimento à derrota – dessa condição brota a potência dos versos – e não a um ceticismo desencantado. Daí me incomodar o verbo “desmascarar”, pq pressupõe uma máscara que eu não acho que coube nesse fracasso genuíno. Contar o vil metal é uma forma de como morrem os sonhos. Alguns.

  3. Regis, excelente e fundamental texto. Aproveito o ensejo pra parabenizar o seu trabalho de modo geral, tanto no site como no canal. Em tempos de estupidez quase que absoluta, provocar a reflexão e estimular o consumo de arte é praticamente um ato de subversão, em meio à passividade de uma sociedade medíocre. Não raro, uma indicação sua de banda, música ou filme tornou a vida melhor nos últimos meses. Continue.

    Agradeço como colega de profissão (com quem aprendo muito) e como cidadão.

    Forte abraço.

  4. Ótimo texto, como todos que você faz. Aprecio todas as suas análises cirurgicamente precisas e honestas, sem melação.
    O Belchior é um dos meus artistas favoritos. A capacidade que ele tinha de expor nossa hipocrisia era impressionante. Ele abordou com profundidade grandes questões humanas, mostrando uma percepção da nossa condição de seres incompletos e insatisfeitos, tal como Dostoiévski fez na literatura. Tenho como objetivo conhecer todas as músicas e poesias dele, entender sua filosofia.

    Como grande apreciador da música, gostaria de dizer que também sou seu grande fã Regis, acompanho seu trabalho aqui no blog, no Facebook e no YouTube. Você tem feito um trabalho incrível pela cultura.

    Aproveito para dizer que gostaria de ver algum dia uma análise sua sobre a música sertaneja de verdade, aquela feita por Zé Carreiro e Carreirinho, Tião Carreiro e Pardinho, Zé Mulato e Cassiano, Almir Sater entres tantos outros que representam a identidade da viola caipira. Te sigo no Spotify e vi que você aprecia algumas músicas do Almir e do Renato Teixeira.

    Grande abraço, desejo muita saúde e sucesso para você!

    1. Obrigado pelos elogios, Allan.
      Vou preparar uma matéria a respeito desse assunto.
      Abraço e obrigado pela audiência. Sucesso e saúde para todos nós.

  5. Exatamente!!! Foi um gênio! Aprendi a ouvir e gostar de Belchior com meu avô na sua casa de praia em Porto seguro , eu com 12 anos ficava só escutando bem do fundo da vitrola do meu avô as canções do Belchior, que vinham do seu quarto. Foi mágico a primeira vez que ouvi. Sai vasculhando tudo e hj graças a meu avô sou um fã da obra desse gênio.

  6. Se a gente der uma olhada em 99,9% das letras de TODAS as canções brasileiras gravadas nos últimos dez anos e compará-las com meia dúzia de poemas de Belchior que ele transformou em música, a vontade que dá é sentar na beira da calçada e chorar de desgosto por horas a fio.

    Perfeita a colocação. E acrescento: Não dá vontade de chorar só quando comparamos as letras escritas nos últimos 10 anos com um compositor MUITO acima da média, como o Belchior. Mesmo gente que veio depois dele, mas não pode ser comparada a ele, como Renato Russo, Lobão, Cazuza e até uns que não são exatamente uma unanimidade, como o Humberto Gessinger e o Paulo Ricardo, parecem geniais, dignos de uma cadeira na ABL.
    Os anos 80 e início dos 90 foram o último período da música brasileira em que PESSOAS QUE FORAM PARA A ESCOLA escreviam letras para UM PÚBLICO QUE TAMBÉM FOI.

    O politicamente correto poderia acusar essa afirmação de elitista, mas perto do LIXO que se grava hoje, as letras do Chorão do CBJ soam como poesia. Não é à toa que a gente vê uma molecada que procura algo que seja simplesmente “razoavelmente inteligente” ache uma babaquice pretensiosa como Los Hermanos genial. Em terra de cego, quem tem 1/4 de olho é rei.

  7. Régis, sigo seu canal no youtube e hoje entrei pela 1a vez aqui no seu blog. Que boa lembrança o seu post sobre o Belchior, grande compositor e letrista que merece todo o destaque (especialmente para quem não o conheceu na época). Você lembrou bem, suas letras eram muito provocadoras, críticas e em grande parte das vezes melancólicas. Parece que, como na sua ‘A Palo Seco’, ele queria mesmo ‘cortar’ a carne do ouvintes com o seu canto. Faz muita falta na nossa música um compositor genial como ele. Obrigado pelo post e siga com o seu excelente trabalho (seus videos e críticas são ótimos!). Grande abraço.

  8. Foi, sem dúvida alguma, um dos maiores compositores da história… e sua voz transmitia todas as emoções que a letra pedia. Baita texto, Régis… Obrigado.

  9. Se há algo que nosso país necessita resgatar e cultivar, é a memória. Minha geração, dos anos 90, não é muito melhor que a sua, Régis. Diria até que é pior. Ao menos vocês sentem vergonha, a minha nem isso. Belchior, mesmo tendo partido, ainda consegue colocar o dedo na ferida, consegue causar esse incômodo e estranhamento. Acho de extrema necessidade esse resgate, e eu vejo que teu texto fez essa função.
    E mesmo que não pareça, que seja uma “pregação pro deserto”, teu trabalho é imprescindível nesse sentido. Te agradeço e faço votos para que tu continues firme e forte no ofício da crítica. Um abraço.

  10. Seu canto torto cortou, feito faca, nossa carne e nossa alma. Um verdadeiro oásis em meio a um deserto de auto-crítica e competência. Aprecio muito sua obra, desde a adolescência, quando conheci ‘Como nossos pais’ na voz da Elis e, mais tarde, ‘Negro amor’ na versão dos Engenheiros. Só então, tendo conhecimento do compositor de tais músicas, pude, usando a Internet, procurar o restante de sua obra.
    ‘Paralelas’ foi como um tapa na cara e ‘A palo seco’ como um soco no estômago. Com ‘Medo de avião’ ficou, realmente, fácil de entender “aquele toque Beatle”.
    Por seu final, recluso, tenho receio de taxá-lo como louco. Gênio que foi, pode ter sido seu último ato para atirar em nossa cara a nossa hipocrisia.
    Excelente texto, Regis. Obrigado pelo maravilhoso presente.

  11. Pensa que esqueci quando você escreveu que ele cantava como “uma gralha com laringite”, lá na Mosh? Kkkkkkk Brincadeiras a parte, minha preferida é “Como o Diabo gosta”, pela verve anarquista de causar inveja em Raul.

    1. Não lembro de ter me referido a ele nesses termos em alguma matéria da Mosh. Aliás, não lembro de ter escrito qualquer texto a respeito dele por lá…

      1. Deculpe-me. Foi falta de memória minha, afinal lá se vão bem uns 15 anos. Fui conferir, pois guardo as revistas e os temos citados acima foram usados para se referir ao Fagner e à canção Noturno. Do Belchior você disse que parece que ele gravou seus discos gripado. Foi numa matéria sobre os hits mais irritantes da música brasileira e a canção do Melchior era Apenas Um Rapaz Latino-americano. Bons tempos.

        1. Vim do futuro para dizer que ele chamou a Elba Ramalho de gralha com laringite um ou dois meses depois dessa coluna, nas resenhas dos agendas dos shows. Talvez tu o tenhas inspirado, haha.

  12. Belo texto, assim como o sobre Alucinação. Belchior deixou e deixa saudade. Por sinal, uma sobrinha dele trabalha comigo e pode falar um pouco sobre outra ótica a respeito dele.

    Vi o programa hoje no pânico, apesar de concordar com 90% do que você disse achei que foste um pouco ríspido com o rapaz do k-pop, não que tenhas pedido minha opinião a respeito.

    Abraço e acompanho o canal no YouTube, parabéns pelo trabalho e ótimo conteúdo.

    1. Obrigado, Patrick.
      Minha resposta ríspida ao garoto se deveu às expressões de galhofa que ele tentou endereçar a mim. E “amigo” é mesmo uma palavra que só deve ser usada com pessoas realmente próxima.
      Mais uma vez, obrigado pelos elogios e audiência.

  13. Quando ouço Belchior, fortaleço em mim a ideia de que a vida não faz o menor sentido. Mas já que estamos aqui, que façamos algo com aquilo que fizeram conosco. “Posso fugir para ignorar, mas não posso ignorar que fujo” (Sartre)

    “De carrão chego mais rápido à revolução”. (Belchior)

    Obrigado Regis, pelo texto.

  14. Excelente texto, Regis.
    É emocionante saber como foi a vida deste grande cantor e compositor da música brasileira.
    A forma como você colocou as palavras nos faz refletir bastante sobre a música, a vida do artista, as emoções que ela nos causa.
    Obrigado!!!

  15. Belíssimo texto, Régis. Belchior não é para qq um, são pouco os que entendem a beleza das suas composições. Vc fez uma justa e bela homenagem à obra dele.

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