Beyoncé e Jay-Z acertam as mãos em “Everything is Love”

Lançado sem qualquer estardalhaço ou mesmo algum tipo de pré-anúncio, Everything is Love é, antes de tudo, um acerto de contas entre Beyoncé e Jay-Z na forma de um álbum de rap. É sim uma espécie de “terapia de casal” musical, em que não há espaços para baladas e choros de arrependimento.

Vários foram os grandes acertos do casal na produção do disco, desde privilegiar uma timbragem “old school” em várias batidas escolhidas até a atmosfera “soul music” das antigas, tornada ainda mais explícita pela maneira como Beyoncé criou suas linhas de vocais. De sua parte, Jay-Z retoma em sua maneira de cantar uma vibração “hip-hop de raiz” que havia parcialmente deixada de lado em seu trabalho anterior, o mediano e superestimado 4:44, lançado no ano passado. O que ambos fizeram foi parar de experimentar sonoridades típicas do moderno r&b e olhar um pouco para o passado, musical e pessoalmente.

A conversa que o casal entabula logo de cara na excelente “Summer” e sua vibração nitidamente influenciada pelo som da lendária gravadora Stax é um alento auditivo imediato, que acontece também em “LoveHappy”, a ótima faixa que encerra o álbum. A conexão com os vocais mais frenéticos de Beyoncé e Jay-Z e as sonoridades mais atuais nas igualmente belas “Apeshit”, “713” e “Friends” funcionam muito bem, bem distante daquelas porcarias cometidas por 99% do hip-hop e do r&b atuais. Uma lição que toda essa turma de picaretas deveria aprender o mais rápido possível…

https://www.youtube.com/watch?v=nDIgSt7jvk4

https://www.youtube.com/watch?v=J42UybsPdmg

https://www.youtube.com/watch?v=WzwoOqvdpdY

 

A cadência mais arrastada de “Boss” chega próxima dos padrões clichês do gênero, mas escapa de tais armadilhas com um arranjo muito bem sacado, com certeiras intervenções de timbres simulando naipe de metais. Beyoncé acompanha a malemolência pedida pela canção com uma interpretação relaxada e sensual, ao passo que Jay-Z faz sua intervenção de modo certeiramente contido. Algumas linhas de voz dele são bastante complexas para os padrões do rap, como em “Nice”, canção que, embora igualmente cadenciada, não consegue os mesmos resultados daquela que a antecede, mesmo com Beyoncé se esforçando para passar altivez em seus vocais. Jay-Z e o convidado Pharrell – criador do sensacional hit “Happy”, de 2013 – fracassam na tentativa de criar algo cativante aos ouvidos.

 

A atmosfera oitentista que permeia “Heard About Us” forma um painel sônico bem sacado para uma letra que critica a excessiva atenção que cada passo que o casal dá recebe por parte da mídia em geral, ao passo que “Black Effect” – com um surpreendente e surreal sample de “Broken Strings”, obscura canção do não menos obscuro grupo setentista japonês Flower Travellin’ Band – tem suas harmonias conectadas de uma maneira pouco usual para os padrões pop, um frescor de inventividade sempre bem vindo.

https://www.youtube.com/watch?v=a84ZkBl8sb4

https://www.youtube.com/watch?v=i8Uroh_NfBA

 

Hoje fica muito claro que os discos que Beyoncé e Jay-Z lançaram individualmente tempos atrás – Lemonade em 2016 e o já citado 4:44, respectivamente – foram purgações de seus próprios erros e pecados, uma lavagem de roupa suja em que cada um ofereceu a sua versão de tempos conjugais sombrios. Everything is Love é um pacto de paz e de “bola pra frente” do casal. Vamos ver até quando vai durar essa “DR” em público…

2 respostas

  1. Já que ninguém comentou, irei comentar: ouvindo o álbum e lendo suas pontuações, faz total sentido pensar que eles tiveram um cuidado na hora de deixar uma música cristalina e comercial ao mesmo tempo. Arrisco em dizer que o disco poderia ser uma espécie de guia para o universo “Pop-Rap contemporâneo”.

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