Billy Gibbons vive bem sem o ZZ Top

Não se sabe se o ZZ Top acabou sem alarde ou se o trio está apenas dando um tempo na carreira. Afinal de contas, o ultimo disco que soltaram – o excelente La Futura – foi há seis anos e, de lá para cá, só fizeram shows esporádicos. O que se sabe é que, ao contrário do baixista Dusty Hill e do baterista Frank Beard, o guitarrista/vocalista Billy Gibbons não quis se aposentar e tratou de mergulhar em uma carreira solo. Nenhuma surpresa, já que ele sempre foi a figura central do grupo.

Ele já tinha lançado em 2015 um ótimo disco, Perfectamundo, ao lado de um grupo que ele mesmo montou, o BFG’s, no qual botou para fora todo o seu amor pela tradição da música mexicana e cubana. A maneira como ele criou um amálgama sonoro com o uso de sons analógicos e digitais para trazer uma atmosfera multicultural ao seu som foi de uma destreza ímpar.

Apesar de não ser considerado como um “purista do blues”, Gibbons prestou seu devido e honesto tributo ao mostrar suas versões de “Got Love If You Want It”, de Slim Harpo, e “Treat Her Right”, de Roy Head, fazendo-as brilhar tão intensamente quanto sua imersão na música latina nas ótimas “Hombre Sin Nombre”, “Sal Y Pimiento”, “Piedras Negras” e “Quiero Mas Dinero”.

https://www.youtube.com/watch?v=Kpfwd8bI5GU

 

Agora Gibbons reaparece com The Big Bad Blues, um disco que, basicamente, traz a mesma fórmula de um típico álbum de covers, mas com um detalhe que faz muita diferença: a abordagem mais pesada em todos os instrumentos. Com outros músicos ao seu lado, como o famoso baterista Matt Sorum – sim, aquele mesmo que tocou no Guns ‘n’ Roses, no The Cult e no Velvet Revolver -, o guitarrista voltou aos campos do blues que lhe deram tanta fama nos tempos de ZZ Top com o mesmo sentimento de diversão notado em Perfectamundo, mas com um som bem mais encorpado.

Ao resgatar clássicos de Muddy Waters (“Rollin’ and Tumblin’” e “Standing Around Crying”, as duas com uma abordagem que deixaria o falecido Johnny Winter com um brilho extra naqueles olhos vesgos), Bo Diddley (“Crackin’ Up”, “Bring It to Jerome”) e colocá-los lado a lado com ótimas composições próprias, Gibbons parece ter sido tocado pela maneira como os Rolling Stones fizeram com que todas as versões que gravaram no ótimo Blue & Lonesome (de 2016), soassem como canções da própria banda. Desta forma, qualquer pessoa desavisada ou ignorante musicalmente pode pensar que Big Bad Blues é um “novo disco do ZZ Top”. Não, isso não é um defeito…

https://www.youtube.com/watch?v=U9bbYMDMdhc

 

A abertura com “Missin’ Yo’ Kissin’” não poderia ser mais apropriada, já que Gibbons compôs uma “prima” da antológica “La Grange”, do ZZ Top, sem esconder que ambas são filhas de um petardo qualquer de John Lee Hooker. Emendando com um safadíssimo shuffle em “My Babe She Rocks”, ele oferece uma ferramenta de compreensão do gênero uma nova geração e leva um sorriso para o rosto de arcaicos colecionadores como o tio aqui, como também ocorre nas igualmente sacanas “Let the Left Hand Know” e “That’s What She Said”.

 

Já “Second Line”, “Hollywood 151” e “Mo’ Slower Blues” são totalmente Rolling Stones. Dá até para imaginar uma hipotética participação de Mick Jagger, Keith Richards e Charlie Watts nelas, junto com a voz de Gibbons encharcada de tequila.

https://www.youtube.com/watch?v=JlTPxoccDIQ

 

Ao ouvir os dois discos em questão, fica muito claro que Gibbons exala muito mais que a habilidade em criar solos faiscantes: ele tem uma honestidade musical muito rara nos dias de hoje. E também está bem feliz longe do ZZ Top…

2 respostas

  1. caro Regis, lhe conheci em uma das tardes de sabado de bate papo musical infindável e saudável na animal records de nosso amigo carlão e, a despeito de você detonar com muitas bandas e artistas que curto, concordo demais com sua abordagem e suas visões com relação a musica e o mercado musical de nossos dias além, claro, de curtir muita coisa que você também aprecia. quanto ao presente texto, sempre achei billy gibbons um guitarrista extremamente subestimado, com talento enorme e quase nunca lembrado entre os grandes, com uma obra quase irretocável com o zz top adicionada de suas incursões solo excelentes. parabéns pelo texto e pelo resgate deste grande cara do rock n roll

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