Springsteen ficou cinco anos sem gravar. Está com quase 70 anos de idade e não dá sinais de que vai se aposentar, muito menos deixar de surpreender. Isso fica muito claro quando se ouve um disco como Western Stars, lançado recentemente. Quem acompanha a discografia dele COM DESATENÇÃO vai estranhar um pouco a sonoridade das treze maravilhosas canções contidas no álbum.

Por todas elas permeia uma atmosfera “country orquestral sesssentista” que, estranhamente, me remeteu ao que sempre ouvi em discos como Nebraska, de 1982, só que agora com uma grandiloquência que jamais soa excessiva, exatamente como faziam nos anos 60 e 70 alguns grandes cantores/compositores do naipe de Jimmy Webb e Glen Campbel. Ao mesmo tempo, a calma reinante traz um grau de melancolia libertária, pois Springsteen não se furta em cantar a respeito de alguns de seus assuntos favoritos, como as estradas americanas praticamente desertas, gente triste e solitária vivendo em hotéis baratos e perambulando por cidades sem nenhuma perspectiva, romances que não se concretizam como deveriam…

A abertura com a linda “Hitch Hikin’” traz Springsteen fazendo uma homenagem (bem) implícita ao saudoso Roy Orbison em sua maneira de cantar – um pouco mais aguda que o normal, com autoridade, por sobre de uma planície sonora formada por banjo, violão, piano e orquestra. Os cellos ouvidos em “The Wayfarer” e “Chasin’ Wild Horses” trazem sensações diferentes. Na primeira, eles pontuam a dinâmica para que Bruce e os violinos enveredem por um tema grandioso, que resvala para uma pegada country que mais parece a trilha sonora de algum filme de faroeste, causando uma estranheza muito bem vinda, ainda mais quando entram os vocais de apoio e o órgão Hammond quase ao final. Na segunda, eles trazem aquela introspecção poética que Bruce sabe tão bem emoldurar com violões tristes e um pedal steel choroso. Quando entram as épicas cordas da orquestra – assim como ocorre em “Tucson Train” e “There Goes My Miracle” -, a vontade é de chorar. Sério!

 

 

 

 

 

Se “Sleepy Joe’s Café” tem em sua sonoridade aquele carimbo texano/mexicano inequívoco que aparece em quase todo álbum de Springsteen, o som do pedal steel em lindas faixas como “Hello Sunshine”, a faixa-título e a curta “Somewhere North of Nashville” só alimenta a sensação de que a voz contida e, ao mesmo tempo, robusta do anfitrião de uma viagem por uma América ainda esquecida de todos é cada vez mais necessária à nossa alma de ouvinte. Da mesma forma, a delicadeza do arranjo de “Drive Fast (The Stuntman)” é a prova concreta de que Springsteen vai além do que espera seu público ao não perder a verve poética ao contar as lembranças de um dublê de cinema nos anos dourados, em que podia beber um trago junto com John Wayne.

Que disco emocionante!