Sou absolutamente fã de documentários que envolvam as histórias de bandas e artistas significativos da música, não importando o gênero. Assisto a todos que consigo sem desgrudar os olhos da tela e sequer levantando para dar uma “mijada” básica ou pegar alguma coisa na geladeira para ‘beliscar’. Atenção total.

É claro que alguns são melhores do que outros. Há casos em que mesmo o próprio artista não ajuda, mas quando os integrantes de uma banda de rock lendária se dispõem a contar tudo, sem esconder os detalhes podres, aí é programão na certa. Até costumava chamar os amigos em casa para uma sessão especial, regada a Jack Daniels, vinhos e bons queijos. Voltarei a fazer isso assim que a pandemia do coronavírus passar…

Por saber que todos nós estamos nesse clima de “quarentena compulsória”, recomendo que você assista ao espetacular History of the Eagles – The Story of an American Band, um dos retratos mais sinceros, cáusticos e reveladores dos meandros de uma banda de rock famosíssima por suas sofisticadas canções, mas que sempre esteve envolta em conflitos que traçam um painel fidedigno de toda a cena musical que caracterizou a Costa Oeste dos Estados Unidos nos anos 70.

Caso você não saiba, o Eagles era popularíssimo naquela época – e ainda é nos dias atuais! -, a ponto de ter sua primeira coletânea, Their Greatest Hits (1971-1975), se transformado no segundo álbum mais vendido de todos os tempos, só perdendo para o Thriller do Michael Jackson! Responsáveis pela amplificação em escala mundial de um padrão sonoro conhecido como “country rock” por intermédio de canções brilhantes – como “Take It Easy”, “Tequila Sunrise”, “Desperado”, “One of These Nights” e, claro, “Hotel California” -, o Eagles também se transformou com o tempo em um poço de rancor…

Dirigido por Allison Ellwood, o documentário foi colocado em um DVD duplo e dividido em duas partes. Isso faz todo o sentido, já que a história da banda teve exatamente tal divisão quando os caras se separaram, fizeram suas carreiras solo e voltaram a tocar juntos. Tudo regado a um coquetel de dureza no início, muito dinheiro, quantidades nababescas de cocaína e maconha, egos inflados e tudo mais o que você puder imaginar.

Poucas vezes se viu integrantes de uma banda tão abertos a falar despudoradamente a respeitos das contradições inerentes ao show business, os processos criativos que levam ao surgimento de canções antológicas, os excessos da estrada, as crises de estrelismos que levam invariavelmente a conflitos pessoais e, claro, ao fim de uma banda.

Os momentos sensacionais são muitos. Não dá para evitar uma baba escorrendo pelo canto da boca ao ver como as extraordinárias harmonias vocais das canções eram criadas pelo baterista Don Henley e pelo guitarrista/tecladista Glenn Frey, os dois líderes irrefutáveis da banda. Fiquei babando ao ver a maravilhosa cantora country Linda Ronstadt no esplendor de sua juventude, exalando sexo por todos os poros e contando de maneira meiga como ajudou a carreira de Frey e Halen transformando-os em integrantes de sua banda. Fiquei incrédulo ao ver como o outro guitarrista, Don Felder, é retrato como um cara mimado que só queria grana e cantar umas músicas, e a maneira como o outro guitarrista do grupo, Bernie Leadon, jogou fora sua careira ao derramar uma garrafa de cerveja em cima da cabeça de Frey no camarim de um show.

Tudo está retratado em detalhes inacreditáveis: a amizade e a influência de Jackson Browne, as parcerias com os compositores J. D. Souther e Jack Tempchin, as brigas e processos contra o outrora poderoso David Geffen, as tretas com o lendário produtor Glyn Johns, os problemas com o alcoolismo do guitarrista Joe Walsh, a volta triunfal com um especial acústico para a MTV…

Eu poderia ficar horas escrevendo tudo o que rola no documentário. Não vou fazer isto para não aborrecê-lo. Por isso, faça um favor a si mesmo: assista com atenção e depois diga se estou exagerando…