São poucos os álbuns que podem ser considerados como unanimidades. Ninguém é retardado o suficiente para dizer que o The Dark Side of the Moon é chato, que o Machine Head é fraco, que o Pet Sounds tem canções bobinhas, que o Led Zeppelin IV tem só três boas músicas, que o Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band tem orquestração irritante… Bem, se você for um destes mentecaptos que pensa dessa forma, faça um favor a si mesmo: pare de ler o que eu escrevo. Agora. Neste exato momento. Ficarei feliz em saber que não sou lido por um asno em forma de ser humano.

OK, se você continua por aqui, é sinal de quem tem pelo menos um número razoável de neurônios em bom funcionamento. E é para você que eu escrevo o seguinte: pode colocar o sensacional Master of Puppets na lista de “unanimidades incontestáveis”.

Nem entro mais no mérito se ele é o melhor álbum que o Metallica lançou até hoje, já que este papo de “melhor” é extremamente subjetivo. O que é realmente verdadeiro é o sentimento de espanto causado pela audição de cada uma de suas faixas, mesmo para quem nunca foi ou ainda não é familiarizado com este tipo de som. Ainda hoje ele invade nossos ouvidos como um furacão. Sei bem disso, pois resolvi reouvi-lo depois de muitos anos para fazer mais um vídeo da série “Aposto que Você Não Sabe…” lá em meu canal no You Tube, que você pode assistir aqui .

Lançado originalmente em 1986, Master of Puppets foi um avanço incrível em relação a seu antecessor, o ótimo Ride the Lightning, que havia deixado todo mundo de cabelo em pé dois anos antes. A sintonia entre James Hetfield, Lars Ulrich, Kirk Hammett e Cliff Burton naquela época propiciou a criação de melodias marcantes e riffs espetaculares, tudo preenchido com letras completamente desesperançosas a respeito da paranoia esquizofrênica/cocainômana/política que marcou aquela geração. Não foi à toa que a crítica e a imprensa musical em geral da época sacaram que ali estava uma banda diferenciada, que poderia alcançar o estrelato dentro de poucos anos, algo que veio realmente a acontecer.

Era um som para quem odiava pseudoastros com cabelos armados e cheios de laquê ou qualquer troço que soasse “pop”. Sim, era uma atitude radical, mas que fazia parte do contexto histórico que a música vivia então. Era como se o Metallica fosse um baluarte de uma nova contracultura.

Como afirmei no vídeo em questão, tenho quase certeza de que o Metallica não lançaria com Burton – que morreu em um acidente com o ônibus da banda durante uma turnê europeia meses depois do lançamento do disco – os mesmos álbuns que veio a soltar nos anos seguintes. O …And Justice for All teria o som do baixo bem “na cara” – ao contrário do que realmente aconteceu com o coitado do Jason Newsted -, o Black Album não soaria tão “domesticado”, e o St. Anger não teria tantas canções fracas e aquele som de “batuque em lata de goiabada” da bateria do Lars Ulrich. Sua morte o transformou em lenda e em uma espécie de “mártir da velocidade metálica”, uma bobagem que o próprio Burton rechaçaria com veemência se pudesse…

Faça um favor a si mesmo: ouça “Battery”, a faixa título, “The Thing That Should Not Be”, “Welcome Home (Sanitarium)”, “Disposable Heroes”, “Leper Messiah”, a instrumental “Orion” e “Damage Inc.”, nesta exata sequência, como está no disco. Se tiver filhos, ouça junto com eles. Aí você vai entender o justificado culto reservado a esse estupendo álbum. Obrigado.