Hoje, durante um almoço com amigos, fiz menção ao fato de que a grande maioria das pessoas sai de casa atualmente para fazer programas idiotizantes, como ir ao cinema para assistir a troços abomináveis como Detetive Pikachu, The Lego Movie 2 e outras merdas desse mesmo naipe. Quando citei que ninguém liga mais para filmes como Django Livre, tomei um susto: nenhum de meus amigos tinha assistido a ele! Inacreditável!

Peraí, não me diga que você, que está lendo estas mal traçadas linhas neste exato momento, também não assistiu… É sério! Não é possível…

Pois saiba que na atual cena cinematográfica, são raríssimos os casos de diretores que por si só são responsáveis por levar as pessoas ao cinema, independente do filme que tenham dirigido. No meu caso, posso citar Martin Scorsese, Guy Ritchie – pelo amor de Deus, você tem que assistir aos sensacionais Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes e Snatch – Porcos e Diamantes – e, claro, Quentin Tarantino. Não vejo a hora de conferir seu mais recente “tapa na cara” cinematográfico, Era uma Vez em Hollywood, que estranhamente vem recebendo críticas bem negativas. Sinal dos novos tempos de “bundamolismo” generalizado?

Nem vou desperdiçar o seu tempo tecendo loas aos brilhantes filmes que ele dirigiu, escreveu o roteiro e atuou, tudo ao mesmo tempo – Cães de Aluguel, Pulp Fiction, Kill Bill 1 & 2, Os Oito Odiados etc. -, e sim dedicar este estas linhas a algumas reflexões que tive na época depois de assistir Django Livre.

Tarantino tem toda a pinta de ser um tremendo boa praça, gente fina, que faz um tipo de cinema que desagrada aos críticos pedantes e metidos a intelectualóides, daqueles que tem orgasmos múltiplos quando assistem a filmes iranianos filmados em branco e preto e que retratam a vida de pedra e de uma árvore durante os anos 60.

Já o negócio de Tarantino é prestar homenagens aos filmes que assistiu quando era um simples balconista de uma vídeo locadora em Los Angeles no início dos anos 80. Só que isso é feito de uma maneira personalíssima, banhada em sangue, situações cômicas e diálogos espertíssimos, que já influenciam toda uma geração de cineastas. Além disso, quem gosta dos filmes do cara já vai ao cinema sabendo o que vai encontrar. E mesmo assim a surpresa é sempre imensa.

É o caso de Django, por exemplo. Se você cometeu o terrível erro de ainda não tê-lo assistido, vou te contar umas coisinhas…

Logo de cara, o personagem principal é negro, ao contrário do Django original, cujo papel foi de Franco Nero – que, inclusive, faz uma ponta no filme de Tarantino, uma “piada/citação/homenagem interna” que só quem tem um mínimo de conhecimento a respeito de cinema conseguiu sacar – e que foi brilhantemente incorporado e interpretado com precisão pelo talentoso Jamie Fox. Ao assistir ao filme, você vai se surpreender como o diretor conseguiu unir duas de suas paixões cinematográficas: o faroeste italiano – o tal de “spaghetti western” ­ – e as películas feitas por diretores e atores negros para plateias idem nos anos 70, que receberam a denominação de “blaxploitation”. E existem tantas outras surpresas que não irei comentar aqui para não estragar o prazer de quem, mesmo tardiamente, resolver corrigir esse terrível lapso cinematográfico.

O que não é surpreendente é o magistral desempenho daquele que é verdadeiramente o personagem principal do filme. Assim como fez no filme anterior de Tarantino, Bastardos Inglórios, Christoph Waltz simplesmente domina todas as cenas com mais um impagável personagem, o falso dentista e caçador de recompensas Dr. King Schultz – uma clara homenagem ao engraçadíssimo personagem Sargento Schultz do lendário e hilariante seriado Guerra, Sombra e Água Fresca – que é definitivamente quem conduz o filme na maior parte do tempo. E tem também…

Não, “pera lá”! Se eu escrever mais a respeito do que se passa na tela, vou acabar contando detalhes importantes e estragando as surpresas de quem ainda não assistiu, ainda mais em uma época que qualquer spoiler causa ataques de cólera em adultos infantilizados. Vou me ater a um detalhe que julgo fundamental e que o filme expõe às claras: o racismo que havia nos Estados Unidos no século 19. E não apenas nos Estados Unidos, mas em todos os países. Incluindo o Brasil.

A gritaria contra o filme nos Estados Unidos foi intensa, a ponto de Tarantino ser acusado de racismo. Tudo porque ele mostrou de maneira crua, perversa e violenta tudo o que os escravos negros sofreram na pele e na alma durante aqueles tempos. O diretor não escondeu nada: desde o nojento “colaboracionismo” de alguns próprios negros, tão racistas quanto seus patrões brancos – em Django Livre, estes dois tipos são brilhantemente interpretados por Samuel L. Jackson e Leonardo DiCaprio – até mesmo a mais temível das palavras que alguém pode dizer nos Estados Unidos hoje em dia: nigger, o equivalente a “crioulo filho da puta” se houvesse uma tradução para o português. O termo é considerado tão ofensivo até os dias atuais que nenhuma pessoa branca pode dizê-la sem correr o risco de levar um taco de baseball na boca…

Pois a tal palavra é dita aos borbotões durante o filme, dezenas de vezes. E eu entendi porque Tarantino fez isso…

Ao contrário da imensa parcela da comunidade negra americana, o filme não é racista. Muito pelo contrário! Você acaba de assistir ao filme e fica ainda mais enojado com tudo aquilo que acontecia naquela época e ainda mais engajado na postura de não permitir que tal situação volte a acontecer. Eu mesmo, que sempre condenei veementemente qualquer forma de racismo, saí do cinema na época ainda mais intolerante em relação a qualquer tipo de discriminação racial…

O que Tarantino fez, de certa forma, é uma “terapia de choque”. Ele nos mostrou o quão baixo pode chegar o ser humano no tratamento ao seu semelhante, independente do grau de melanina existente na pele – há uma cena envolvendo cachorros que é particularmente repulsiva – e incute em cada um de nós um sentimento de justiça absolutamente inabalável.

Não perca tempo: assista a Django Livre com olhos, ouvidos e, principalmente, cérebro bem abertos, ainda mais porque ele sempre é reprisado nos canais de TV a cabo, juntamente com o seu sucessor, o igualmente ótimo Os Oito Odiados, que…

Peraí, você não assistiu a esse também? Porra! Onde você esteve morando nós últimos quinze anos? Em Saturno?