Hoje tive uma experiência gloriosa e surpreendente ao escolher a trilha sonora para uma manhã de trabalho em meu escritório: descobrir um CD ainda lacrado em minha coleção.

Não me lembro de tê-lo comprado, muito menos como ele foi parar em uma de minhas estantes. Estava colocado no lugar exato na ordem alfabética que faz parte da minha organização – em casa, LPs e CDs obedecem a ela e também ao ano de lançamento, para que eu possa encontrar tudo com facilidade. Curiosamente, é o único CD de um instrumentista cujo restante obra está presente em vinil em minha coleção: Clifford Brown.

O excepcional trompetista teve uma vida curta: morreu com apenas 25 anos de idade em um acidente de carro. Poucos meses antes, ele havia formado um quinteto com o posteriormente lendário baterista Max Roach e começado a chamar a atenção do público e dos críticos com o som fenomenal que o grupo criava. Passou a ser considerado como o legítimo sucessor do cultuado Fats Navarro – que também havia morrido precocemente em 1950 – e, junto aos então jovens trompetistas Dizzy Gillespie e Miles Davis, formou uma trindade magnífica do instrumento daqueles tempos.

Contrastando com a figura ligeiramente sombria de Navarro, Brown tinha um astral tão legal ao tocar que logo começou a receber apelidos carinhosos, como “Sweet Brownie” e “Sweet Guy”. Até mesmo pretensos rivais, como Art Farmer, demonstravam uma enorme simpatia por ele. Nunca teve qualquer dificuldade em arrumar trabalho tocando ao lado de grandes nomes do jazz, como Charlie Parker, Tadd Dameron, Lionel Hampton e Art Blakey.

Ao longo das décadas, adquiri quase todos os LPs que Clifford Brown gravou, com exceção de um. E foi justamente esse que descobri hoje pela manhã, lacradinho, em uma edição japonesa! Enquanto escrevo estas palavras ao maravilhoso som dele, o mistério continua: como esse disco foi parar aqui em casa?

With Strings foi gravado em apenas três dias de janeiro em 1955. É uma coleção de baladas maravilhosas, de fazer chorar de tão lindas e com arranjos de cordas orquestrais não menos que sublimes, a cargo do arranjador e compositor Neal Hefti, uma das figuras mais importantes e subestimadas da história do jazz, parceiro de gente como Count Basie e Harry James, cuja discografia integral em LPs originais venho “caçando” há anos (tenho vários de seus álbuns e prometo escrever a respeito deles em futuro próximo).

O senso de improvisação de Brown era quase assombroso, mas foi deixado de lado nas gravações do disco em questão em prol de uma abordagem mais sensível, que exigiu um perfeccionismo até então inédito da parte de trompetista – ao gravar a lendária balada “Smoke Gets in Your Eyes” (de autoria de Jerome Kern e que todo mundo conhece por causa da antológica interpretação do grupo vocal The Platters), ele só ficou satisfeito com o próprio desempenho depois de gravar onze takes da canção. Brown havia percebido que era muito mais difícil tocar o que era considerado “mais simples” pelos leigos do que complicados temas de bebop, por exemplo. Os tempos em que ‘matava’ uma gravação em uma única ‘passada’ ficaram para trás nesse caso específico.

A interpretação que ele imprimiu a outros grandes clássicos da canção americana nesse disco é impressionante. Tanto “Yesterdays” (também de autoria de Kern, posteriormente regravada por Billie Holiday e Miles Davis) como as antológicas “Blue Moon”, “Stardust”, “Willow Weep for Me” e “Embraceable You” foram renovadas com um espírito igualmente delicado, acrescido de uma sensibilidade melódica que quase nos leva às lágrimas. Com os arranjos de cordas e a condução orquestral de Hefti, tudo soa de maneira estonteantemente sublime. Não é à toa que o maestro/arranjador/compositor Quincy Jones e um dos discípulos de Brown, o tradicionalista e polêmico Wynton Marsalis, já revelaram em entrevistas que sentem um nó na garganta toda vez que ouvem este disco. O estilo cristalino de Brown o transformou em ídolo de várias gerações de trompetistas, incluindo nomes consagrados como Lee Morgan, Donald Byrd e Terence Blanchard.

É impossível imaginar onde ele teria chegado se não fosse o trágico acidente que o vitimou tão precocemente no final de junho de 1956 – até então, ele havia gravado treze álbuns em curtíssimo espaço de tempo. Por isso, With Strings acabou se tornando no capítulo final de um involuntário testamento musical.

Você pode ouvir o álbum na íntegra no link abaixo. É esse som que preenche a atmosfera de meu apartamento desde as nove da manhã. E ele não parou até agora…