De vez em quando é bom dar um tempo nas “novidades”, principalmente no que se refere ao universo musical. Deixar de lado as ‘trocentas’ bandas pseudomoderninhas que imitam os sons do passado e regurgitam canções medíocres das quais ninguém lembra quando acabam de tocar, grupelhos nacionais que se julgam a “última bolacha do pacote”, mas que não sabem sequer afinar seus instrumentos com precisão, com seus vocalistas que emitem sons tão desafinados que fazem um babuíno soar como o Frank Sinatra… Enfim, é salutar, sempre que possível, entrar em uma espécie de túnel do tempo musical para saborear algumas iguarias que jamais devem ser ignoradas ou esquecidas.

Fiz isto no final de semana que terminou ontem. Por uma série de motivos, rodei bastante de carro por São Paulo e resolvi usar como trilha sonora os álbuns de uma das bandas mais sensacionais de todos os tempos. Não, não foi a discografia de algum grupo obscuro de hard rock progressivo dos anos 70, muito menos algo exoticamente psicodélico e interessante da década de 60. Passei  sexta, sábado e domingo à bordo de meu “possante” ouvindo os discos do… Creedence Clearwater Revival.

É difícil imaginar quais outras bandas fizeram tantas canções espetaculares dentro de um período tão curto: do primeiro e espetacular álbum, batizado com o nome da banda, até o último, o irregular Mardi Grass, se passaram apenas quatro anos (1968 a 1972). Foi um hit atrás do outro: as personalíssimas versões de “I Put a Spell on You” (do doidaço Screaming Jay Hawkins), “Susie Q” (do subestimado Dale Hawkins), “Good Golly Miss Molly” e “I Heard It Through the Grapevine” (eternizadas por Little Richard e Marvin Gaye, respectivamente), mais as sensacionais “Proud Mary”, ‘Born on the Bayou”, “Green River”, “Bad Moon Rising”, “Lodi”, “Fortunate Son”, “Up Around the Bend”, “Who’ll Stop the Rain”, “Hey Tonight” e, claro, o clássico de todas as gerações: “Have You Ever Seen the Rain”. E isto sem contar as ótimas canções que não chegaram a fazer sucesso nas rádios, mas que ajudaram a transformar os álbuns da banda em verdadeiros “greatest hits informais”.

A banda durou tão pouco porque a incontestável liderança do cantor/guitarrista/compositor John Fogerty virou motivo de motim entre os outros integrantes, o que levou a brigas físicas e batalhas judiciais homéricas. Quando Fogerty pulou fora do barco, os outros caras não conseguiram produzir mais nada.

Houve um tempo em que canções da banda sobreviviam ao vivo por intermédio de um arremedo picareta – vira e mexe o Brasil era ‘agraciado’ com shows de um tal “Creedence Clearwater Revisited”, que contava apenas com a presença do baixista Stu Cook e do baterista Doug Clifford – e da própria carreira solo de Fogerty, que vem lançando ótimos discos há décadas e sempre enfia algumas de suas clássicas canções nos repertórios dos shows.

Se você é daqueles que só conhece “aquela que toca na rádio”, a coletânea tripla Ultimate – Greatest Hits & All-Time Classics é uma ótima introdução a um universo riquíssimo em termos de rock, country e folk, e que ainda soa tão moderno quanto a 352 anos atrás. E ouça no carro!