Daniel Day-Lewis deu exemplo para artistas e bandas: saiu por cima

Daniel Day-Lewis deu exemplo

Muita gente usa o cinema como um mero “ganha-pão”, só que muitíssimo bem remunerado. Veja os casos de Robert De Niro e Michael Caine, atores icônicos dotados de extraordinária capacidade de atuação que não tem a menor vergonha de estrelar tremendos “abacaxis” só pela grana e por temporadas de diversão nos sets de filmagens.

Lembrei-me disso ao assistir novamente Lincoln, um filme muito bom e que deu ao fabuloso Daniel Day-Lewis um terceiro Oscar de “Melhor Ator” – ele já tinha recebido o mesmo prêmio em anos anteriores pelo extraordinário Meu Pé Esquerdo e pelo ótimo Sangue Negro. Lembrei dele porque Lewis foi exatamente o oposto de Caine e De Niro não apenas na escolha dos filmes que resolveu abraçar com a dedicação absurda, mas também porque saiu de cena no auge de sua forma e fama. Parece incrível, mas isso não era importante para ele…

Day-Lewis certamente era – e ainda é – um sujeito estranho. Só estrelava filmes nos quais sentia algum tipo de simbiose com a sua própria maneira de pensar a vida, como o seu personagem odioso em Gangues de Nova York, dirigido por Martin Scorsese. Deve ter recusado centenas de convites para atuar em filmes que, a partir de seu ponto de vista, pouco ou nada tinham a ver com ele e seus princípios. Tem gente que concilia abordagem artística com remuneração divertida, como fazem Caine e De Niro. Não era o caso de Day-Lewis.

Em mundo lotado de gente tarada por subcelebridades egocêntricas, o ex-ator deve ter desistido de buscar por papéis que a cada dia se tornam mais incompreendidos por multidões de descerebrados. Ao decidir se aposentar em 2017, sem alarde, ele manteve intacta aquilo que de mais precioso um artista ou qualquer pessoa que leve seu trabalho a sério pode almejar: credibilidade.

No sentido de conciliar senso artístico e diversão/compensação financeira, os mundos do cinema e da música são quase como um universo só. Ambos são imensas prateleiras de supermercados, com todos os tipos de produtos e ofertas, mas tem gente que não aceita ser exposto a consumidores medíocres. Inevitavelmente, acabam abandonando a carreira pelo cansaço de exibir trabalhos que não seriam entendidos da maneira como se propõem. Entendeu agora por que uma banda como o REM saiu de fininho, da mesma forma que Day-Lewis?

Tente encontrar no universo da música jovem atual um caso similar ao de Day-Lewis. Não vale pensar em veteranos como Bob Dylan, Bruce Springsteen e mais meia dúzia de outros ícones da independência artística. Difícil, não?

17 respostas

  1. Um dos maiores atores de todos os tempos, sem dúvida… vivemos em uma época integridade e credibilidade nada valem, caro Régis. Em termos musicais, vejo o Rival Sons como exemplo de credibilidade e integridade, além de fazerem um som muito foda. Grande abraço.

  2. Régis, não seria o caso também do David Gilmour (não sei se ele entra no grupo daqueles que você citou no fim do texto)?
    Que recusa insistentemente uma bilionária reunião do Pink Floyd por simplesmente querer ficar em paz? E manter uma discreta e muito digna carreira solo?

    Abraço

  3. Belo texto! Acho De Niro um dos maiores atores de todos os tempos mas realmente ele não participa de grandes filmes com a frequência de outrora. Embora o próximo filme dele dirigido pelo Scorsese tem tudo para ser memorável.
    Acredito que Tarantino vai seguir o mesmo caminho de Day Lewis e se aposentar no auge.

  4. Cara, excelente sacada a sua. E de todos os filmes que já vi, a maior atuação de um ator foi a dele em Sangue Negro. Day-Lewis estupendo. Deveriam mostrar aquilo por 48h trancado numa sala com 3 Litros de água, um pacote de pão de forma e um rolo de papel higiênico a qualquer rapaz que pense em ser ator e para alguns que se acham aí na praça…
    Vou recomendar a leitura dessa sua grande saca Régis. Abraço

  5. Neil Young faz desse grupo que não rebaixa o próprio trabalho artístico ? A propósito, discordo de você em alguns temas, porém eu admiro o seu trabalho, sobretudo a autenticidade . Day Lewis fez poucos e bons filmes. Parabéns pelo texto!

  6. O Rush é outro exemplo de banda que encerrou suas atividades em um bom momento (o último disco deles é excelente) e sem alarde e nem turnês de despedida.

  7. Que eu me lembre de uma banda que fez isso de cabeça foi o REM, dai não consigo mais lembrar de outra que encerrou sem alarde.

  8. Parabéns pelo texto! Sua fala lembrou-me o Bauman (quando ele fala do homem na modernidade líquida e as mídias) . E Daniel Day- Lewis sempre foi espetacular e muito discreto. Um baita ator!

  9. The Dillinger Escape Plan. Claro, eles não têm a magnitude de uma banda popular (até pelo estilo), mas fizeram um trabalho original e seguiram se desafiando antes de sair de cena.

  10. Um exemplo deste caso e que, infelizmente, foi embora cedo demais: Philip Seymour Hoffman. Grande ator com atuações brilhantes e que estava chegando no nível do Daniel Day Lewis de escolher os papéis. Excelente texto, Regis! Parabéns por sair do lugar comum. Abraço!

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