Depois de 30 anos, “Daydream Nation” não envelheceu nada

Dois meses atrás, muita gente escreveu e comentou a respeito desse disco por ocasião do 30º aniversário de seu lançamento. Não fiz o mesmo por um motivo básico: apesar de tê-lo em minha humilde coleção desde 1988, eu nem me lembrava quando tinha sido a última vez que eu havia ouvido cada uma das faixas de seu repertório. Tinha tanta coisa rolando na minha cabeça em termos de som que pensei que seria apenas mais uma escrever sobre ele. Deixei pra lá. “Vou esperar passar a febre revisionista e abordá-lo com o devido distanciamento”, pensei eu. Tive a mesma atitude em relação a Surfer Rosa, dos Pixies, a respeito do qual pretendo escrever na semana que vem, mas aí é outro papo. O assunto agora é o quinto álbum da discografia do Sonic Youth.

Eu já conhecia o som do grupo. Anos antes, mais precisamente em 1985, eu tinha comprado o segundo disco da banda, Bad Moon Rising, muito mais pela curiosidade que a capa despertou em mim do que por algum conhecimento prévio. Na época, o som me remetia a uma tentativa “americana” em regurgitar uma série de influência dos pós-punk inglês, só que tocado e cantado de uma maneira meio desleixada. Gostei razoavelmente do disco, mas não causou qualquer impacto significativo em mim. E confesso que minha impressão não mudou a respeito dele desde aqueles tempos:

 

Minha opinião a respeito do som do grupo mudou – e para melhor – quando comprei a edição nacional de um LP que guardo até hoje com muito carinho, que é Sister, de 1987, até hoje um de meus discos favoritos do quarteto. O batera já era Steve Shelley e a presença dele fazia toda a diferença do mundo em relação ao que eu tinha ouvido da banda até então – só fui ouvir o EVOL (1986) com atenção no início dos anos 90, só para constar -, pois a “cama rítmica” que ele havia criado junto com deliciosa baixista Kim Gordon era perfeita para a doideira executada pelos guitarristas Thurston Moore e Lee Ranaldo:

 

Foi então que veio Daydream Nation. Vinil duplo, capa bonita e enigmática, meu espírito já preparado pelo ótimo álbum anterior… Quando o lado A começou a tocar, não pude conter o espanto. Todas as esquisitices sônicas estavam ali, mas embaladas com um “papel” quase radiofônico! Tudo soava alto, claro e nítido, mesmo nos momentos mais experimentais, sem aquela sonoridade “lamacenta”, quase abafada dos discos anteriores. Que maravilha absurda!

 

De 1990 a 2011, quando a banda se separou depois que o casamento de Moore e Gordon desmoronou, minha atenção foi dirigida de modo especial a cada álbum que o quarteto lançou. Estranhamente, cada um deles me deixou tão intrigado que acabei esquecendo de voltar a Daydream Nation com a devida atenção que ele sempre mereceu, uma imperdoável negligência de minha parte.

Acabo de ouvir a mesma edição original em LP duplo de ponta a ponta antes de escrever este texto. E puta merda: Daydream Nation não só teve um “envelhecimento zero” como ainda é um dos discos que redefine qualquer padrão auditivo nos dias atuais. Não foi à toa que todo o underground – sim, todo ele, não importa de qual país – teve que pagar tributo ao grupo e, em particular, a esse álbum. Pague você também…

3 respostas

  1. Opa, outra porrada idiossincratica, desta vez de uma galera que curto muito. Certa vez coloquei este disco pra tocar no meu local de trabalho, em um volume razoavelmente alto. Experiência inesquecível, meu caro…

    Kkkkkkkkkkk

  2. Baita texto de um baita álbum. Eu queria ter assinado o seu plano de recompensas para poder pedir um álbum: It Takes a Nation of Millions to Hold Us Back. Senti falta de mais textos lembrando dos 30 anos desse álbum seminal. No mais, bom fim de semana.

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