Deus, como eu odeio “More Than Words”

Tenho escrito muito a respeito dos sons que eu adoro por aqui. Hoje, vou mudar um pouco dessa história e contar a vocês como surgiu uma das músicas que mais odeio e que acabou se tornando um sucesso mundial: a pavorosa “More Than Words”, do Extreme.

Voltando no tempo, é preciso ter em mente que era necessário muito mais que um punhado de boas canções para fazer com que o autointitulado álbum de estreia do grupo, lançado em 1990, se tornasse um estouro pelo menos dentro do mercado americano, que era o que realmente interessava – e ainda interessa até hoje – para qualquer artista.

Para não repetir o ostracismo ao qual foi relegado o disco, a gravadora A&M contratou o renomado produtor alemão Michael Wagener para a gravação de um segundo álbum. E ele avisou logo de cara que era preciso incluir a tradicional “balada para tocar nas rádios”, uma exigência de toda gravadora naqueles tempos pré-grunge, para que o material que ele havia ouvido nas novas demos pudesse realmente funcionar no novo trabalho.

Nuno resolveu se trancar em casa e tentar criar que pudesse ser radiofônico o suficiente para que a banda não fosse incluída dentro da mesma “caixa” onde habitavam grupos que se renderam a tal estratégia com canções absolutamente medíocres, como o Bon Jovi, Warrant e Cinderella, só para citar nomes da cena hard poser daqueles tempos. O guitarrista não conseguia – e não queria – ver o Extreme naquele mesmo balaio…

Ele pensou “o que caras como Paul McCartney fariam se estivessem no meio do mesmo dilema” – sim, Nuno confessou isso em diversas entrevistas! – e a resposta foi apostar na simplicidade. O resultado foi… “More Than Words”! Segundo o próprio guitarrista, foi um elemento crucial para que a canção atingisse em cheio os ouvintes das rádios e os telespectadores da MTV daqueles tempos.

Quando Nuno mostrou o esboço ao vocalista Gary Cherone, este imediatamente começou a rabiscar em uma folha de papel algumas frases que se encaixavam naquilo que o guitarrista mostrava a ele no violão. Ambos pensaram em escrever uma letra que mostrasse como a frase “eu te amo” havia perdido completamente a sua profundidade, já que havia se transformado em um clichê que passou a ser dito em qualquer circunstância. Criaram as harmonias vocais e gravaram a música do jeito que havia sido concebida inicialmente.

Quando o álbum Pornograffitti foi lançado em 1990, adivinhe qual foi a canção que a gravadora escolheu para tocar nas rádios? Com a ajuda primordial de videoclipe filmado em preto e branco, sem qualquer efeito mirabolante, a canção levou a banda ao estrelato mundial em poucas semanas.

 

O sucesso estrondoso acabou se tornando um veneno dentro das entranhas do grupo. Uma única balada ajudou a tornar o quarteto dependente de um sucesso global que teria que ter continuidade para a gravadora. A pressão para repetir o feito no disco seguinte, um inacreditável “álbum conceitual” batizado como Extreme: III Sides to Every Story, mais os excessos de confiança e presunção em sintonia com as futilidades do show business, totalmente equivocados justamente na época da ascensão do grunge, levaram o grupo a ser nocauteado sem piedade pelos fraquíssimos números de vendagens de discos e shows.

Obviamente, foi a chance para Nuno cair fora para tentar uma carreira solo – que se tornou um fracasso retumbante – ao mesmo tempo em que Cherone aceitou o convite para substituir Sammy Hagar no Van Halen, em um dos erros mais desastrosos já registrados na história do rock, mas essa é um a história que talvez eu conte em detalhes em breve, assim como os bastidores da volta do Extreme anos depois…

Que fique registrado de maneira pública e notória: “More Than Words” provoca em mim uma repulsa tão intensa que nem mesmo a piada feita por Jack Black e Jimmy Fallon ao recriar o clipe dessa merda trouxe algum tipo de sorriso aos meus lábios:

2018-12-06T13:37:18+00:00

19 Comments

  1. Santos 6 de dezembro de 2018 at 14:03 - Reply

    Essa música me lembrou as cantorias bregas de Backstreet Boys. Credo!

  2. Ingo 6 de dezembro de 2018 at 14:57 - Reply

    Assim como todas as músicas do Legião Urbana e Stairway to Heaven, More Than Words é parte do repertório básico dos chatos de luau, que estão inseridos no grupo das “pessoas que acabam com festas”, do qual também fazer parte os jogadores de truco.

  3. Afonso Ellero 6 de dezembro de 2018 at 15:27 - Reply

    Eu estava no estádio do Pacaembu numa noite qualquer de 1992 assistindo o finado Hollywood Rock que naquele dia apresentou Barão Vermelho na sua fase mais hard, o supra citado Extreme e fechando a noite o Skid Row. Lá pelas tantas Nuno e Gary sentaram-se cada qual em seu banquinho e iniciaram o momento Bossa Nova disparando na sequência, se não me falha a memória cinquentenário, More Than Words e Love of My Life do Queen. Talvez os caras estivessem almejando um coro em uníssono como o da banda inglesa, mas… Pra usar um termo que minha filha adolescente adora pronunciar, o Extreme “flopou”!
    O que eu não me esqueço foi de ter cantado mentalmente assim que a pataquada terminou uma canção do Raul Gil que diz em certo momento: “… pegue o seu banquinho e saia de mansinho”

  4. Guilhos 6 de dezembro de 2018 at 15:29 - Reply

    Perfeito! Só isso! Concordo plenamente com você, Regis. Infelizmente, o Extreme acabou por se curvar diante dos caprichos do mercado, e o resultado foi uma ilusão do que o grupo realmente era.

  5. Dennis R.C. 6 de dezembro de 2018 at 16:57 - Reply

    Por ter ouvido tanto essa bagaça não sei dizer ao certo se não gosto por esse motivo ou por achar ruim mesmo.

    Fiquei curioso pra saber sua opinião sobre o grupo e sua discografia.

    Abraço Régis.

    • Regis Tadeu 6 de dezembro de 2018 at 23:53 - Reply

      Os discos são muito irregulares, Dennis. Todos eles.

  6. Paulo Roberto 6 de dezembro de 2018 at 18:33 - Reply

    Sempre pensei se mais alguém também sentia uma repulsa enorme por essa música xexelenta. ODEIO a letra, o arranjo, o clipe…odeio até os instrumentos utilizados na gravação.

  7. Thiago 6 de dezembro de 2018 at 19:46 - Reply

    Eu gosto de “Hole Hearted”

  8. CHARLES 7 de dezembro de 2018 at 01:46 - Reply
  9. Zé Roberto 7 de dezembro de 2018 at 11:29 - Reply

    Eu não odeio e muito menos curto. ignoro essa música e toda essa cena poser dos anos 80/90. Passo batido em tudo e só ouço se eu estiver em um ambiente que estiver tocando alguma dessas músicas. Acho que é porque tem tanta coisa boa pra ouvir que eu nem consigo ouvir tudo o que verdadeiramente curto.

  10. Rei Pelé 7 de dezembro de 2018 at 13:35 - Reply

    Essa música pra mim não fede nem cheira

    • Regis Tadeu 7 de dezembro de 2018 at 16:11 - Reply

      Assim como o seu comentário…

  11. Ademar 7 de dezembro de 2018 at 17:20 - Reply

    Realmente é uma musiquinha lixo.

  12. Eduardo 9 de dezembro de 2018 at 02:14 - Reply

    Concordo que “More Than Words” é uma música chata, mas o Extreme tem músicas MUITO interessantes (especialmente no segundo e terceiro album), com peso e até uma dose de “Funk Metal” em algumas. “Get the Funk Out”, “Decadence dance”, “Pornograffitti” “Li’l Jack Horny”, “Politicalamity”, “Peacemaker Die” entre outras. Além do Nuno ser um guitarrista subestimado, pois a sua técnica é beeeeeem acima da média dos guitarristas de Hard Rock.

    • Eduardo 9 de dezembro de 2018 at 02:28 - Reply

      Só pra complementar, mesmo aceitando se “vender” para fazer “More Than Words”, não acho que eles estejam no mesmo patamar de bandas como Bon Jovi, Warrant e Poison (que é um exemplo melhor do que o Cinderella pois esta banda tem um bom peso nas músicas e até lembra o AC/DC) pois além de não serem tão açucarados e pop como essas bandas possuem uma dose maior de autenticidade, na minha opinião.

  13. Rodrigo Macedo 9 de dezembro de 2018 at 21:53 - Reply
    • Regis Tadeu 10 de dezembro de 2018 at 01:08 - Reply

      Você pensa que eu sou algum tipo de idiota?

  14. Ale Zastras 10 de dezembro de 2018 at 10:40 - Reply

    Olá Régis, como vai? Concordo inteiramente, porém com uma ressalva e uma dúvida.

    Ressalva: Tecnicamente a banda sempre me surpreendeu, até nessa música, as linhas de vocais e violão são muito bem trabalhadas, talvez se não fosse por todo o contexto, seria mais ok. Mas uma série de fatores mudam nossa experiência com a canção. Por exemplo, ser tocada repetidamente por décadas em cada canto do mundo, etc…

    Dúvida: Uma coisa que começou a me incomodar nessa banda foi uma aparente posição política. “Peacemaker Die” é uma música que acho bem legal, mas aparentemente sua letra fala sobre ser à favor da guerra, racismo e anti-comunista. Confere?

    Sou muito fã seu, ouço muito o Lado Z!!

    • Regis Tadeu 10 de dezembro de 2018 at 13:18 - Reply

      Ale, a letra de “Peacemaker Die” foi escrita com uma pesada ironia e não pode ser ouvida de maneira descolada das outras canções, já que o álbum que a contém é uma pretensa “obra conceitual”. E obrigado pela audiência!

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