Não importa que a surf music tenha cativado pelo menos duas gerações de garotos bronzeados em cima de suas pranchas e meninas de biquínis de bolinhas amarelinhas. Não importa que os grandes nomes do estilo para a grande maioria das pessoas se resuma a Beach Boy, The Ventures e, olhe lá, a turma da praia de Frankie Avalon e Annette Funicello. Não importa que sua carreira tenha sido tirada do limbo nos anos 90 por causa da adoração de um cineasta tão genial quanto maluco. Nada disso interessa no dia de hoje. O que importa mesmo é que você saiba que, na surf music, ele foi “O” guitarrista. Sim, “foi”, porque Dick Dale morreu anteontem, aos 81 anos.

Ninguém – mas ninguém MESMO! – ficava indiferente ao momento em as primeiras notas de “Misirlou” invadiam as imagens do filme Pulp Fiction, de Quentin Tarantino. A sensação era que nosso cérebro havia sido cortado por uma lâmina afiadíssima em forma de bumerangue que havia saído da tela. Eu mesmo não tinha a menor de ideia de que raio de som fulminante era aquele. Era 1994 e a internet ainda era coisa de ficção científica…

Quando comprei a trilha do filme e descobri o nome de Dale, fui atrás do som dele do jeito que dava. Encontrei uma coletânea, King of the Surf Guitar: The Best of Dick Dale & The Del-Tones, e lá estava a música – de 1962! – que havia momentaneamente transformado meu cérebro em um pudim. Foi então que tomei contato com uma sonoridade absurda, muito mais agressiva, com uma areia mais densa e pegajosa que aquela espalhada pela turma do Brian Wilson.

 

O som era uma doideira completa, já que misturava os padrões da surf music que eu já conhecia com os Ventures com escalas e melodias tipicamente europeias, mais precisamente da Grécia – preste atenção às harmonias e melodias na própria “Misirlou”-, dos países da antiga “Cortina de Ferro”, da Mesopotâmia e sabe-se lá mais de onde. O efeito de reverb que ele usava parecia ter ido criado por alguma entidade demoníaca e sua palhetada era tão rápida e precisa que fazia o Alvin Lee soar como o Roger, do Ultraje a Rigor. Até hoje, uma de suas mais incríveis pauladas, “Let’s Go Trippin’”, lançada em 1961, é considerado como o “marco zero da surf music”. Não duvido.

 

Com o passar do tempo, trabalhando para a revista Cover Guitarra, minhas pesquisas mostraram que ele teve um papel fundamental no desenvolvimento da Fender nos anos 60, tanto em melhorias e alterações nos modelos das guitarras Stratocaster como dos amplificadores da marca. O genial Leo Fender costumava dizer que “se um novo protótipo de equipamento conseguia sobreviver ao ataque de Dale, então aquilo estava pronto para ser fabricado para os músicos normais”. Tremendo elogio! Sem contar que ele era um guitarrista canhoto que não invertia as cordas do instrumento, ou seja, as cordas mais graves ficavam na borda inferior do braço da guitarra – aqui no Brasil, Edgard Scandurra também tem tal característica.

Pena que sua carreira a partir dos anos 70 foi abandonada pelo próprio guitarrista e retomada com seriedade somente depois do estouro mundial do filme. Não podia parar de tocar porque a grana pagava todos os remédios de sua saúde deteriorada pelos abusos do passado.

Sua história pessoal acabou no sábado passado, mas o legado musical que deixou jamais morrerá enquanto houver uma praia, surfistas, belas garotas e alguém perguntando “Vamos botar um som pra rolar?”