A notícia me atingiu em cheio: um “disco perdido” do Humble Pie será lançado oficialmente nos próximos dias! Reunindo gravações que a banda fez em 1975, Join Effort é o álbum que a A&M, gravadora do grupo na época, simplesmente rejeitou e que causou uma imensa confusão, tão grande que foi uma das principais causas do fim do quarteto poucos meses depois.

Se você não entendeu o motivo de tal impacto em mim, eu explico: a banda inglesa sempre foi uma de minhas favoritas em todos os tempos!

Fiquei sabendo que o tal “disco perdido” vai trazer canções autorais e três versões: “Think”, de James Brown, “Rain”, dos Beatles e “Let Me Be Your Lovemaker”, da cantora Betty Wright. E essa informação me deu a certeza de que tudo está ligado a um episódio muito nebuloso dentro da história não apenas do Humble Pie, mas de como as coisas funcionavam no meio musical desde aqueles tempos: o disco Street Rats, de 1975. Não entendeu nada? Calma, eu explico… Ouve aí primeiro!

 

 

 

Você tem que saber que o Humble Pie era um grupo espetacular, formado por músicos de primeira grandeza dentro da cena britânica no período compreendido entre a segunda metade dos anos 60 e a primeira metade da década de seguinte. A banda era liderada pelo extraordinário guitarrista/vocalista Steve Marriott, um sujeito dotado de uma voz extraordinária, um estilo de tocar insanamente agressivo para aqueles tempos e com uma personalidade completamente maluca, que já tinha fama mundial por ter liderado por um tempo o maravilhoso grupo Small Faces, cuja discografia irrepreensível tinha um clássico imortal – o álbum Ogdens’ Nut Gone Flake (1968) -, vários hits, como “Lazy Sunday”, “Itchycoo Park”, “Tin Soldier” e “All or Nothing”, e tinha em sua formação o lendário baixista Ronnie Lane e o baterista Kenney Jones, que anos depois ocuparia o lugar do falecido Keith Moon no The Who.

 

 

 

 

 

Para você ter uma ideia de como o baixinho Marriott era “fodão”, quando ele saiu do Small Faces de tanto brigar internamente com seus companheiros e resolveu montar um novo grupo, os integrantes remanescentes tiveram que contratar um guitarrista e um vocalista para preencher o vazio deixado por Marriott. Os nomes dos jovens substitutos? Ronnie Wood e Rod Stewart! Toda essa história eu prometo contar em breve em um futuro texto, não agora…

Voltando ao assunto deste texto, Marriott criou o Humble Pie com o baixista Greg Ridley, o baterista Jerry Shirley e um jovem guitarrista chamado… Peter Frampton! Essa formação gravou discos de estúdio sensacionais – As Safe as Yesterday is (1969), Humble Pie (1970) e Rock On (1971) – e um mitológico álbum ao vivo, Performance Rockin’ the Fillmore, também em 1971. Foi então que Frampton caiu fora, sendo substituído por Clem Clempson.

 

 

 

 

Ao mesmo tempo em que a banda continuou a excursionar como uma turma de alucinados, Marriott mergulhou ainda mais no álcool, LSD, maconha e anfetaminas, tudo consumido como se fossem caixas de chocolate Bis. Os discos continuavam muito bons – Smokin’ (1972), Eat It (1973) – até que a capacidade de Marriott como compositor e seu próprio estado mental começaram a desmoronar, a ponto de o disco seguinte, o igualmente ótimo Thunderbox (1974), conter apenas cinco canções autorais em parceria com seus colegas e ter que ser completado com versões – arrasadoras, diga-se de passagem – de “No Money Down”, do Chuck Berry, “I Can’t Stand the Rain”, da cantora Ann Peebles, “Anna (Go to Him), do Arthur Alexander, “Oh La-De-Da”, do Staple Singers e de “Grooving With Jesus”, do grupo gospel The Violinaires, entre outros. E a partir daí que entra o tal “disco perdido”…

 

Desiludido, quebrado financeiramente e ainda devendo um álbum para a A&M, Marriott resolveu dar um tempo no “coquetel do capeta” e se trancou em um estúdio e começou a compor para um hipotético álbum solo, sem o conhecimento de sua gravadora. Cobrado insistentemente pelos executivos para enviar imediatamente as gravações do próximo LP do Humble Pie, Marriott começou a enrolar e despistar, dizendo-se doente e dando ‘trocentas’ desculpas diferentes. Cansada de esperar, a gravadora enviou dois funcionários ao estúdio e simplesmente “confiscou” todas as fitas, mixou e masterizou tudo por conta própria e lançou o disco assim mesmo em 1975, intitulado Street Rats, à revelia de Marriott e do restante da banda. Foi o estopim para o fim do grupo, ainda que a A&M tivesse lançado o ótimo álbum solo de Marriott, batizado com seu sobrenome, no ano seguinte.

 

 

 

Anos mais tarde, precisamente a partir do final de 1979, Marriott retomou as atividades da banda e continuou na ativa com diferentes formações, até que morreu em 1991, queimado em sua própria casa durante um incêndio causado por um cigarro aceso na cama enquanto dormia…

Dei toda essa volta histórica para dizer que tenho quase certeza que Join Effort nada mais é do que sobras daquela época. Tanto que esse “disco perdido” traz as versões que a banda fez para as canções dos Beatles e da Betty Wright que foram incluídas no Street Rats. Sacou? Outro detalhe que me chamou a atenção: na capa divulgada há uma foto do grupo ainda com Frampton, que já tinha saído do Humble Pie naqueles tempos. Estou sentindo cheiro de “produto caça-níqueis montado por quem nunca conheceu a história da banda”… Você não?