Enquanto alguns se dedicam a passar o tempo caçando coisas para assistir nos “Netflix da vida”, prefiro vasculhar minha própria coleção de DVDs e relembrar pequenas preciosidades injustamente esquecidas nas estantes. Fiz isso ontem à noite, ao deixar de lado alguns filmes que estavam em minha mira e inventar um novo passatempo: assistir dois shows de estilos completamente diferentes em uma mesma noite. Essa é uma das inúmeras vantagens de morar sozinho: não ter que assistir comédias românticas sofisticadas só para agradar a qualquer garota, não ter que sucumbir a filmes verborrágicos quando não se está com vontade e muito menos assistir péssimos stand ups de pseudohumoristas nova-iorquinos que não passam de imitadores baratos do Jerry Seinfeld. Eu decido o que assistir, sem negociações. Bom demais! Recomendo!

Dando aquela vasculhada geral na estante, peguei os dois DVDs abaixo e passei uma noite divertidíssima comigo mesmo.

 

O primeiro deles foi Beach Boys 50 – Live in Concert, gravado em 2012 depois que alguns integrantes do lendário grupo americano resolveram fazer uma trégua temporária em suas eternas brigas e discussões para realizar alguns shows comemorativos dos 50 anos de existência da banda e, se possível, lançar um disco só com canções inéditas. Essa “paz com dias contados” rendeu um álbum no mínimo interessante – That’s Why God Made the Radio – e uma turnê que está registrada nesse bom DVD duplo.

Nos shows, um incrivelmente “rejuvenescido” – se preferir, leia “menos lesado” – Brian Wilson aparece ao lado de seus desafetos Al Jardine e Mike Love, mais o velho Bruce Johnston, o guitarrista David Marks e um monte de músicos na banda de apoio. Tudo para tentar recriar o que fosse possível daqueles arranjos sensacionais que sempre estavam presentes nas canções dos Beach Boys.

Chega ser divertido ver os velhinhos tentando aparentar alguns sinais da juventude perdidas em algum lugar do passado em clássicos que jamais envelhecem, como “California Girls”, “Wouldn’t It Be Nice” e “I Get Around”. A execução das canções é bacana de um modo geral, embora no DVD não estejam todas as músicas do show, o que é algo a se lamentar nos dias de hoje.

No disco 2 há um documentário interessante, em que parte da história do grupo foi contada naqueles dias pelos integrantes, com a inclusão de algumas cenas antigas bem escolhidas e outras mais recentes, mostrando os caras durante a gravação do álbum de estúdio acima citado. Recomendo para quem quer apenas assistir a um show divertido.

 

 

O outro DVD foi Live From the Camden Palace, indicado apenas para quem gosta muito do Girlschool – uma banda feminina inglesa de heavy metal dos anos 80 meio que “irmã do Motörhead”-, já que mostra uma apresentação do quarteto na fase em que tentavam diluir um pouco o seu som para entrar no mercado americano. Claro que a estratégia foi um fracasso, pois além de não serem bonitas, elas não conseguiram tirar alguns resquícios da maravilhosa ‘sujeira tosca’ de seu som inicial, algo que os Estados Unidos não toleravam. O máximo que conseguiram nesta fase foi soar como uma versão um pouco mais ‘podreira’ das Runaways.

Gravado em 1984, quando as meninas estavam divulgando um disco muito ruim – Running Wild -, o show em questão tem o mérito de mostrar que até mesmo algumas canções que soaram extremamente polidas nos discos receberam um tratamento mais energético, como são os casos de “Play Dirty” e “Rock Me, Shock Me”.

A então vocalista Jackie Bodimead, embora fosse o protótipo estético do pavoroso “hair metal” que rolava naqueles tempos nos Estados Unidos, até que mandou bem nos vocais das canções antigas, como “Emergency” e “C’mon Let’s Go”. Enquanto a baterista Denise Duffort compensou o que lhe sempre lhe faltou em beleza com a força com que tocava seus tambores e pratos, a então novata guitarrista solo Chris Bonacci – que substituiu na ocasião a carismática Kelly Johnson – mandou muito bem, soando como uma versão feminina do Rick Derringer, principalmente no aspecto físico.

Vale a pena assistir na íntegra abaixo e dar umas boas risadas: