Quase ninguém conhecia Malcolm John Rebennack Jr., mas quando o nome “Dr. John” era citado, não havia quem não fizesse a devida reverência a um verdadeiro “pajé musical”, que misturava em seu caldeirão sonoro doses tão cavalares de rock, jazz, soul e funk a partir da atmosfera que sempre imperou em New Orleans que ouvir seus discos e assistir aos seus shows se assemelhava a participar de uma experiência mística.

A primeira vez que vi a sua figura e ouvi o seu som foi sentado confortavelmente em uma poltrona do cinema assistindo a O Último Concerto de Rock (The Last Waltz) em 1976, se não me falha a memória. Era o filme da turnê de despedida do The Band, a banda que por muitos anos acompanhou o Bob Dylan e cujos álbuns foram responsáveis pela mudança radical das cabeças de gente como Eric Clapton, Pete Townshend, Mick Jagger, Keith Richards e quem mais você imaginar dentro do principal panteão do rock em todos os tempos. Lá estava um tal de “Dr. John” tocando com os caras uma canção sensacional, “Such a Night”. A partir daquele momento, nunca mais deixei de comprar seus discos e fui atrás de todos os LPs anteriores.

 

Sua maneira de cantar e tocar piano formava um combo hipnótico. A gente era transportado para as ruas festivas e as vielas tenebrosas de sua New Orleans sem sair de nossa própria casa. Sua figura estranhamente colorida era a personificação estética da cultura “vodu” local – não foi à toa que um dos personagens do Muppets Show, o pianista Dr. Teeth, era uma homenagem a ele – e não permitia brincadeiras, por via das dúvidas.

dr. teeth

 

Mas era a sua bagagem musical, forjada por décadas em gravações e shows ao lado de verdadeiros mitos como Professor Longhair, Van Morrison, Aretha Franklin e até mesmo os Rolling Stones, que causava o maior impacto em todos nós. Nem mesmo o tempo em que passou em cana na primeira metade dos anos 60, condenado por uso intensivo de drogas, esmoreceu a sua musicalidade. Pelo contrário! Quando saiu da cadeia e se mandou para Los Angeles em 1965, adotou o personagem “Dr. John, the Nite Tripper” e misturou a malandragem adquirida na penitenciária com os sons que rondavam a sua cabeça. Quando soltou seu espetacular álbum de estreia, Gris-Gris, em 1968, foi tiro e queda!

 

 

Dr. John engatou depois uma sequência de álbuns igualmente estonteantes, como Dr. John’s Gumbo (1972) e In the Right Place (1973), este tendo o maravilhoso The Meters como banda de apoio – o que voltou a acontecer em Desitively Bonnaroo (1974) – e produzido pelo igualmente lendário Allen Toussaint, não sem antes voltar para a sua amada New Orleans em triunfo artístico.

 

 

 

 

Pena que também foi a partir daquela época que ele voltou a mergulhar fundo na heroína, passando por um período barra-pesada nos anos 80. Da década em seguinte em diante, ficou limpo e sóbrio e continuando soltando um álbum atrás do outro e fazendo shows memoráveis.

Um pouco antes de morrer na quinta passada, vitimado por um ataque cardíaco, o velho pajé ainda estava a toda na carreira que já durava seis décadas, estabelecendo parcerias com gente mais jovem e igualmente talentosa, como os guitarristas Derek Trucks e Dan Auerbach, do Black Keys, com quem ele havia trabalhado em um de seus mais recentes e ótimos discos, Locked Down (2013), embora não tivesse mais saúde para se apresentar em shows desde o final de 2017.

 

Não sei bem onde, mas aposto que o velho mestre está comandando mais uma “pajelança” musical…