Como eu prometi ontem ao escrever o texto em homenagem ao Arthur Maia, hoje eu escrevo a respeito de uma figura genial da música brasileira, mas só lembrada por gente mais velha, como o tio aqui.

Se você nunca ouviu falar de Waltel Branco, a primeira informação que eu posso lhe dar a respeito dele é que o maestro, compositor, arranjador, regente e músico paranaense foi o autor do mitológico arranjo do tema-título do filme A Pantera Cor-De-Rosa, composto pelo igualmente genial Henry Mancini, o que lhe deu fama mundial, menos na terra onde nasceu. E ele fez muito mais do que isso…

 

Como arranjador, ele foi brilhante e, principalmente, dotado de um ecletismo musical que só alguns poucos afortunados podem possuir. Foi assim que ele foi uma peça fundamental na criação da bossa nova ao fazer os arranjos do lendário álbum Chega de Saudade que João Gilberto lançou em 1959 como também fez o mesmo em 1972 para o disco de estreia de Odair José na gravadora Philips, Assim sou eu…, entremeados pelo seu brilhante trabalho de orquestração para trilhas sonoras de novelas da Globo – convidado pelo próprio Roberto Marinho! -, como as inesquecíveis Irmãos Coragem (1970), Selva de Pedra (1972) e Escrava Isaura (1976), sendo que esta última teve como tema a canção “Retirantes”, de Dorival Caymmi – com o esquecer o famoso ”lerê lerê”? -, igualmente arranjada por Waltel.

 

Tudo isso aconteceu porque, dominado pela impetuosidade que todo jovem tem aos vinte anos de idade, Waltel havia se mandado para os Estados Unidos em 1949 com a intenção de ser aluno do guitarrista Sal Salvador, que tocava na orquestra de Nat King Cole, com quem chegou a tocar brevemente em um trio – se você não sabe, Cole era um tremendo pianista de jazz, mas essa é uma história que contarei no futuro. A ligação com a família de Cole foi tão grande que anos depois ele foi o produtor de um dos discos de Fred Cole e da própria Natalie Cole.

Quando tocava em um trio com o extraordinário baterista Chico Hamilton, conheceu o maestro Henry Mancini, que havia criado quase uma revolução nos direitos autorais de trilhas para o cinema, que até então pertenciam aos estúdios. Quando estes entraram em crise, Mancini passou a trilhas sonoras desde que os direitos ficassem com ele. Quando estourou logo de cara com a trilha do seriado Peter Gunn, Mancini montou um escritório para atender a enxurrada de novos trabalhos. Quando ouviu Waltel tocar, contratou-o na hora. Foi assim que o brasileiro se tornou o arranjador da trilha da Pantera Cor de Rosa. Chegou até mesmo a gravar o mesmo tema com uma pegada bem mais brasileira:

 

Mesmo em sua própria obra, Waltel jamais deixou de exibir seu talento como multiinstrumentista – ele tocava bem qualquer instrumento que tivesses cordas – e mais ainda como compositor com raízes fortemente fincadas no solo do jazz e do verdadeiro funk, que ele demonstrou de modo brilhante em um de seus discos, o cultuado Meu Balanço, de 1975, gravado em apenas oito horas e aproveitando a presença da orquestra da CBS no estúdio depois de uma gravação de Roberto Carlos na qual Waltel estava trabalhando.

 

Mais raros ainda são os dois volumes de Guitarras em Fogo, que Waltel gravou acompanhado de um time de músicos que tinha entre eles um jovem violonista chamado… Baden Powell!

 

Waltel morreu vitimado pela diabetes no final de novembro, mas, estranhamente, a informação só foi tornada pública na semana passada. Que sua alma agora a responsável por alguma trilha sonora celestial onde quer que ela esteja…