É sua obrigação conhecer o som de Allen Toussaint

Não é preciso ser antropólogo e psicanalista para entender o quanto os álbuns antigos de Allen Toussaint são tão essenciais para explicar a riqueza da alma. Muito menos ter uma aguda capacidade de percepção para verificar que até o fim de sua carreira ele manteve um padrão de excelência difícil de ser superado. Quem nunca ouviu uma música sequer dele merece se sentir bem vindo a um “quarto mundo cultural”.

Compositor, cantor, produtor, arranjador… Não importa o que Toussaint tenha feito enquanto esteve vivo. O resultado sempre era de tirar o fôlego. Não havia um único artista de respeito que tenha sentido a vontade de se ajoelhar à frente dele. Pode perguntar a gente do gabarito de Paul McCartney, Eric Clapton, Elvis Costello – com quem gravou em 2006 um álbum inteiro que uma verdadeira obra prima, The River in Reverse -, Dr. John, Pete Townshend e de todos os integrantes dos Rolling Stones, só para você ter uma ideia da importância dele. Sua fala pausada e em tom tranquilo fazia todo o sentido com a humildade que exalava toda vez que falava a respeito de seu próprio trabalho.

De certa forma, ele foi um dos grandes generais na batalha pela manutenção das raízes do rhythm n’ blues, do soul e do verdadeiro funk na música atual – cada vez mais contaminada pela descartabilidade – tanto pela contínua valorização da riqueza da música de New Orleans quanto pela imensa carga poética que sempre incutiu em suas brilhantes canções.

Toussaint foi um daqueles raros artistas que nunca compôs ou gravou algo que pudesse ser rotulado com o “mediano”. Foi um tesouro da música mundial que, como sempre, foi criminosamente ignorado no Brasil. Duvida? Ouça abaixo, na íntegra, um de seus maravilhosos, Southern Nights, de 1975:

 

Ele nunca foi muito de fazer shows e excursionar por aí, mas foi obrigado a isso depois que um furacão destruiu a sua casa e seu estúdio em New Orleans. Nunca escondeu que seu negócio era compor para os outros. Sorte nossa que pudemos ver esta lenda em carne, osso e canções maravilhosas, como nesse show em Tóquio, um dos últimos:

https://www.youtube.com/watch?v=X4frYZXc9tQ

 

Você talvez tenha ouvido inúmeras composições maravilhosas sem saber que a autoria era dele, como “Ruler of My Heart”, com a grande cantora Irma Thomas; “Ride Your Pony” e “Working in the Coal Mine”, ambas Lee Dorsey, sendo que a segunda chegou a ser regravada pelo Devo!; “Fortune Teller”, com os Rolling Stones; “Southern Nights”, com Glen Campbell; “Get Out of My Life, Woman”, com Albert King; “Sneakin’ Sally Through the Alley”, com Robert Palmer; “Hercules”, com Paul Weller e tantas outras.

Toussaint morreu em novembro de 2015, aos 77 anos de idade, enquanto estava em turnê pela Espanha. No mês seguinte, faria um show ao lado do amigo Paul Simon para angariar recursos para o grupo de caridade que ajudou a fundar, o New Orleans Artists Against Hunger and Homelessness.

Assista abaixo a este ótimo documentário e entenda melhor a importância deste artista de gabarito interplanetário:

https://www.youtube.com/watch?v=mLMI5Oag1nY

 

Se eu estiver em um show do cara em algum lugar depois que morrer, espero te ver por lá…

6 respostas

  1. Infelizmente (para mim) conheci Allen Toussaint muito tarde. Foi numa participação que ele fez no album do Eric Clapton de 2010. Tenho em casa o The Bright Mississippi e o American Tunes, que foram os únicos que consegui achar. Desde então, não saem mais do cd player aqui de casa. Parabéns pelo texto Régis, e também por trazer novamente a memória esse grande artista. Grande Abraço!

  2. Como o Alexandre Salvador acima, eu também conheci Allen Toussaint muito tarde, infelizmente. E foi por conta de um texto seu Régis, de quando ele veio ao Brasil, uns 5 anos atrás. Desde então venho ouvindo e buscando conhecer mais da obra sensacional que ele nos deixou.
    Obrigado pelas suas dicas e parabéns por mais um excelente texto!

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