Por óbvias razões pandêmicas, faz muito tempo que não tenho o salutar hábito de reunir alguns amigos em uma mesa de bar para discutir um único assunto: música. Sempre foi uma daquelas reuniões quase exclusivamente masculinas, já que são poucas as mulheres que conheço que se armam de uma dose extra de paciência para discutir vários assuntos a respeito de um único tema. Quem convivia com mulheres em mesa de bares sabe que elas são capazes de conversar 348 assuntos ao mesmo tempo, mudando de papo com uma rapidez absurdamente estonteante para quem tem muita testosterona na alma. Como elas conseguem isso? Para mim, ainda é um mistério…

Voltando ao assunto deste texto, lembrei que certa vez tive uma divertida discussão com alguns amigos a respeito de música brasileira do passado. Instado a soltar ‘na lata’ um álbum brasileiro que tenha feito a minha cabeça, respondi de bate-pronto: Edison Machado é Samba Novo. A resposta causou surpresa na mesa inteira…

Para quem não sabe, Edison Machado foi um dos maiores bateristas do mundo. Nem mesmo alguém com meio neurônio em funcionamento consegue duvidar de tal afirmação depois de ouvir o referido álbum, ainda mais quando se descobre que ele esteve à frente de um grupo que, na verdade, era uma orquestra: o maestro Moacyr Santos, o flautista/saxofinista J.T Meireles – célebre por seu trabalho com o grupo Copa 5 -, o clarinetista/saxofonista Paulo Moura, os trombonistas Ed Maciel e Raul de Souza – na época conhecido apenas como “Raulzinho” -, o trompetista Pedro Paulo, o pianista Tenório Junior e o baixista Tião Neto, do sensacional grupo Bossa 3.

Com toda a experiência que adquiriu ao longo de seus trabalhos nas gafieiras cariocas, Edison era tão genial que chegou a cunhar um estilo personalíssimo, que muitos até hoje chamam de “samba no prato” – reza a lenda que isso aconteceu em 1949, quando ele furou a pele da caixa durante um baile e acabou tocando a noite toda usando apenas os pratos e o restante dos tambores. Isso lhe propiciou certa fama antes de chegar ao Beco das Garrafas, o tradicional reduto da bossa nova em Copacabana nos anos 60, onde arrasou como membro de um dos mais sensacionais trios daqueles tempos, o Bossa Três, junto com o pianista Luís Carlos Vinhas e o próprio Tião Neto, e também quando integrou um grupo liderado pelo lendário Sérgio Mendes, o Sexteto Bossa Rio. Isso sem contar o Rio 65 Trio, ao lado do também pianista Dom Salvador, claro.

Mesmo depois de tantos anos – o disco foi lançado em 1963 -, é impossível não se surpreender não apenas com o “padrão Blue Note” presente em cada uma das composições, mas também com a modernidade do som em geral. Edison esbanjava genialidade em arranjos ‘entorta pescoço’ para “Nanã”, “Só Por Amor” (de Baden Powell e Vinícius de Morais), “Aboio” e “Você”, esta última com pequenos e espetaculares solos de bateria. Em “Menino Travesso”, uma parceria entre Moacyr Santos e Vinicius de Moraes, Edison estrabeleceu uma conexão rítmica quase insana com as improvisações de Meirelles e Maciel, com os solos de Raulzinho e com o notável senso harmônico de Tenório, atacando a caixa e os pratos com vigor inédito dentro dos parâmetros de sutileza da música brasileira feita naqueles tempos.

Infelizmente, Edison não conseguiu dar uma continuidade a essa maravilhosa fórmula sonora. Quando a ditadura endureceu, muitos músicos resolveram abandonar o País e tentar a vida no exterior, e o batera não foi uma exceção. Ele acabou indo para os Estados Unidos e lá ficou por mais uma década, gravando com estrelas luminares do jazz, como Ron Carter e Chet Baker, mas seu testamento sonoro às novas gerações já havia sido elaborado com um genuíno título: Edison Machado é Samba Novo.

Se você ouvir alguém elogiando esse disco, pode abraçar que é gente fina…