Eleições transformaram amigos em inimigos

Você reparou que, ao contrário das eleições anteriores, não existem carros particulares com adesivos dos candidatos a presidente circulando pelas grandes capitais? Sabe por quê? Porque o medo do vandalismo é gigante. A probabilidade de se ter o carro com os vidros estilhaçados por pedras e a lataria riscada com pregos é de 100%. Esse é apenas um dos sinais da terrível espiral de intolerância que os rasos patamares da discussão política no Brasil levaram ao nosso cotidiano.

Há um outro, muito pior, que levou o ódio a níveis estratosféricos: o fim das amizades, muitas delas formada ao longo de décadas e pulverizadas em poucos posts e textões de Facebook. Eu mesmo venho presenciando amigos em comum deixando de conversarem uns com os outros depois de ‘bate-bocas’ pelo Facebook. Conheço até mesmo um casal que está em vias de se separar porque a mulher é ‘bolsominion’ e o marido é “Lula livre” incondicional. Um absurdo tamanho que me faz chegar a única conclusão possível: as pessoas estão… doentes.

De uma hora para a outra, o receio de que o “candidato antagonista” vença as eleições presidenciais espalhou uma onda de ‘caça às bruxas’ tão inconsequente quanto retrógrada. Nas ruas e nos lares de familiares e amigos, o que impera é vontade de fazer prevalecer o ponto de vista de quem gritar mais alto. Toda e qualquer conversa se transforma imediatamente em discussão política, com as pessoas – militantes ou não – defendendo seus respectivos candidato com a mesma superficialidade com que defendem as qualidades de seu time de futebol, muitas vezes com uma série de dedos no nariz de seu ‘adversário de debate’, como se isso seja suficiente para que o interlocutor mude o seu voto. Cada lado da trincheira quer a vitória baseada em apoio e cumplicidade com a sua argumentação. Um troço muito além do ridículo.

Eu mesmo já estive em situações que, extremamente chateado com um rumo de determinada conversa, tentei cortar o assunto de uma maneira polida e cordial. Quase fui expulso do apartamento do anfitrião por me intrometer sem tomar partido de um ou de outro. Acabei me servindo de outra dose de bourbon e fui assistir a um DVD do Paradise Lost para relaxar. Fiquei com a impressão que a área do cérebro responsável pelas noções básicas de civilidade e racionalidade das pessoas foi neutralizada por algum raio vindo do espaço sideral…

Não importa quem dos dois candidatos – ambos péssimos, por sinal – vença o segundo turno. Estamos todos F-O-D-I-D-O-S. Não apenas porque nenhum deles representa o salvador da pátria que todo mundo espera, mas também porque os defensores do derrotado não irão se calar pacificamente. O clima de guerra já se instalou e não será dissipado facilmente. A alma de cada ‘torcedor’ de seu político favorito, vencedor ou perdedor na eleição, já está contaminada e apodrecida. Que merda…

26 respostas

  1. Belo texto, Régis . As pessoas não perceberam que, independente de quem ganhe estas eleições, já existe um perdedor : O povo brasileiro

  2. Régis, venho deixar minha alegria ao ver a sua imparcialidade neste momento tão ruim do nosso país. Ambos são ruins e não aguento mais ver tanto ódio no país.

    Aliás leio e gosto de todos os textos que você posta.

    Abraço!

  3. Bom texto, os problemas do Brasil estão longe de ser resolvidos por um candidato, vivemos num país de alienação em massa, onde a solução dos problemas é buscar atalhos. É duro ver funkeiro que nunca leu um livro dando palpite na política.

  4. Mandou bem Régis!
    Já dei no saco toda essa situação de levantar a bandeira seja pra um seja pra outro. Nenhum dos dois vai fazer porcaria nenhuma.
    Enquanto prevalecer esse sistema político falido instalado no país desde sua colonização, somado a velha mania de olhar para o próprio umbigo, nada vai mudar.

  5. O lado positivo é que a máscara caiu. O estereótipo de que o brasileiro é da paz, alegres, hospitaleiros, não são racistas, etc. foi por água abaixo.

  6. Texto lúcido e honesto como poucos que vi por aí tentando analisar a coisa toda. O brasileiro está mesmo muito doente. O vetor do contágio está na telinha de cada smartphone. Numa democracia ainda jovem e com um povo tão carente de discernimento e educação de qualidade é a receita para um cenário catastrófico. E não vejo solução a curto prazo não…

  7. Regis, perdemos todos… E para explicar isso para os amigos e parentes? Um ou outro eleitos, será um inferno em nossas vidas. E o país vai entrar num poço sem fundo… Triste. Triste…

  8. É tão difícil decidir entre os dois? Gente… um deles apoia a TORTURA (!!!) , seu ídolo maior é um TORTURADOR e tal candidato já se mostrou a favor da DITADURA (e ditadura minha gente, não sei se vocês sabem, NÃO É LEGAL !!) Só isso já teria de tirar determinada pessoa da neutralidade… mas é o ensaio sobre a cegueira !!!

  9. Muita decepção, de ver tanta gente pegando politico de estimação…O velho PT com seus 16 anos de poder, e Novidade a 28 anos na política !

  10. Concordo, porém, o processo de radicalização reinante é catalizado (e também produzido) pela mídia oficial que, apoiando este ou aquele candidato, em busca desesperada por page views, impulsiona o ambiente beligerante em que vivemos. Isto sem falar nos artistas consagrados que, para manterem suas reputações “lacradoras”, fazem discursos e campanhas contra seus adversários políticos (caetano veloso, daniela mercury, etc). Não há personalidade notável em nosso país que contribua para estancar a sangria ideológica que jorra sem parar. Não conheço alguém de prestígio que se manifeste positivamente, no sentido de esfriar os ânimos, apaziguar as contendas…O clima de “ele não” “ele sim” vem de cima pra baixo.

  11. Essas eleições somadas às redes sociais estão fazendo emergir o que há de pior nas pessoas.Toda vez que tento apresentar uma argumentação mais equilibrada buscando mais entendimento e bom senso, sou praticamente apedrejado pelos dois lados. As pessoas perderam a capacidade de raciocinar e estão agindo como tribos em guerra. Não percebem que estão no mesmo barco e não importa quem ganhar, vão afundar todos juntos.

  12. Concordo com sua opinião de não apoiar nenhum, também entendo a razão das pessoas que preferem anular o voto nessas eleições, mas existe um ponto que deveria ser considerado… Haddad é Lula, Lula e seus cumpanheiros são o PT – partido que está no poder há mais de uma década e que se consideram como interlocutores da democracia – cujo objetivo principal era aparelhar o estado, pagar bonificações (com verba publica) para parlamentares votarem a favor de seus projetos, desviar e limpar dinheiro via empreiteiras e empresas pecuárias, liberar emprestimos bilionários via BNDES para empresários cumpanheiros e partidários, além de regular a mídia e a controlar a internet… Vc acredita mesmo que essa organização partidária estava respeitando o povo e a democracia… De fato, Bolsonaro não é um exemplo de político ideal… mas diante de tudo que aconteceu no governo lulopetista, eu dou total apoio a todos aqueles que se esforçam neste momento para tirar essa organização do poder.

  13. Independente de Candidato cada um tem suas escolhas e elas devem ser respeitadas.

    Brigar por causa de política é algo tão retardado quanto brigar por causa de mulher e futebol.

  14. O absurdo dos absurdos, tenho um colega que não está mais conversando com a própria filha por causa desse embate Bolsonaro x Haddad.
    Aliás, concordo com você, Régis, dois péssimos candidatos.

  15. Bom texto, Regis!

    Mas tenho um ponto de vista diferente. Eu diria que o Brasil está entrando em uma nova etapa da democracia, que exige das pessoas o tal do amadurecimento. Explico: Desde o fim da ditadura militar, o termo “direita” foi associado ao “mal”, o que tornou o Brasil um país onde o pensamento era dividido em variações sobre o mesmo tema. De 1994 até hoje, o poder foi dividido e disputado por um partido de esquerda o PT, que reivindicava o monopólio sobre as boas intenções e um de centro-esquerda o PSDB, que na luta do “bem contra o mal”, fazia o papel de “direita malvada” porque não conseguia se desvencilhar do papel que o seu adversário escolhia para ele na narrativa.

    Esse sistema se esgotou.

    Hoje, políticos e partidos de esquerda e de direita reivindicam para si o papel de “lado certo”, o que significa que ninguém mais é o dono exclusivo da narrativa.

    Países como Estados Unidos, Reino Unido e até o Chile são exemplos de lugares onde esquerda e direita praticam a saudável alternância de poder. E tem que aceitar as regras do jogo, a despeito das teorias conspiratórias.

    Da nossa parte, de pessoas comuns, vamos ter que realmente aprender a viver em democracia, o que significa conviver com quem pensa radicalmente diferente.

  16. Excelente texto, Régis! Refletiu muito do que estamos vendo e vivenciando: fim de amizades, pouca possibilidade de trocas de opiniões, vandalismo desmedido… infelizmente, reitero o sentimento de que, nestas eleições, não importa qual “lado”, ou candidato, vença, no fim todos nós sairemos perdendo. Parabéns mais uma vez pelo texto! Abs

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