Confesso que ando de saco cheio desses tempos de “lacração” e “tribunais de Facebook”. Tempos em que a “postura correta” patrulhada por imbecis com telhado de vidro tem provocado o surgimento de gente sem talento, mas com um “discurso lacrador” prontinho para ser saboreado por uma patuléia com sérios problemas cognitivos. Tempos em que vejo amigos em comum desfazendo amizades de longos anos por conta de discussões absolutamente ridículas a respeito de política, comportamento, futebol e até mesmo música.

Só que não é a respeito disso o tema deste texto e sim um grupo de amigos que ousaram fazer o contrário dois dias atuais: subverter todas as regras do “pensamento civilizado” britânico no final dos anos 60, uma época tão retrógrada quanto a que vivemos hoje. Foram eles os responsáveis pelo alívio que senti no último final de semana quando tratei de me divertir com uma avalanche de incorreção política…

John Cleese, Graham Chapman, Terry Jones, Eric Idle, Terry Gillian e Michael Palin, usando uma espécie de “tática de guerrilha”, atacaram a cultura britânica a partir do final dos anos 60 e provocaram uma inacreditável revolução no humor mundial. Fizeram isso todos juntos, misturados e batizados como… Monty Phyton.

O humor era totalmente surreal. Muito influenciado pela graça dos programas ingleses de rádio nos anos 50, só que adaptado para o formato da TV, o trabalho do grupo era por si só engraçado logo de cara pelo aspecto visual dos esquetes.

Nenhuma instituição britânica era poupada: Igreja, Exército e Forças Armadas em geral, escolas, hospitais, comércio e o próprio Governo… Todos eram alvos de inacreditáveis críticas sob a forma de humor non sense e as animações totalmente malucas e bem sacadas de Gilliam – não foi à toa que ele mais tarde se transformou em um renomado diretor de cinema.

A ordem interna era jamais se mostrar entediante, mesmo que o método de criação dentro do grupo fosse incrivelmente disciplinado, com horários de trabalho, almoço e chá bem definidos, muito longe da anarquia insana que todos imaginavam que fosse o cotidiano deles.

O primeiro episódio do programa Monty Python’s Flying Circus foi ao ar pela BBC 2 no início de outubro de 1969. Se dependesse da emissora, o grupo permaneceria como uma “atração underground” dentro da programação, mas o sucesso começou gradativamente a aumentar, a ponto de fazer o grupo gravar um autointitulado LP no ano seguinte contendo os diálogos de alguns dos mais celebrados esquetes.

Chegaram a fazer um filme inteiro baseado em um dos quadros mais famosos – And Now for Something Completely Different, financiado por um executivo da Playboy inglesa, Victor Lownes, só para o mercado dos cinemas americanos, feito com refilmagens de alguns dos melhores momentos apresentados nos programas. Quando decidiram gravar um segundo LP, Another Monty Python Record, em 1972, foram contratados pelo selo Charisma – o mesmo do Genesis! – e passaram a ser tratados como uma banda de rock em turnê quando apresentavam seus shows pelo Reino Unido.

Em seis anos, o Monty Phython conseguiu uma adoração tão absurda que atingiu um patamar até então impensável: conquistou o mercado americano de entretenimento, a ponto de se tornarem atração até mesmo das FMs americanas, quando seus LPs misturando os áudios dos esquetes hilários e canções muito bem tocadas, com letras absurdas, foram distribuídos nos Estados Unidos.

O programa The Monty Python’s Flying Circus estreou nos EUA em setembro de 1974 e apagou a má impressão causada meses antes por uma apresentação da trupe no programa Tonight Show do Johnny Carson – na ocasião ele estava de férias, quando foi substituído por um mal humorado e irônico comediante Joey Bishop. A “propaganda boca-a-boca” se espalhou depressa…

Grande parte da popularidade do grupo nos Estados Unidos se deveu a Nancy Lewis, divulgadora do selo Buddah, da gravadora Casablanca, de Neil Bogart. Quando Tony Stratton Smith , dono da Charisma e seu amigo, entrou em contato com ela para tentar um acordo de distribuição do selo por lá, Nancy – que já conhecia os Python nos tempos em que havia trabalhado na Inglaterra com o The Who – convenceu Bogart a lançar os dois primeiros LPs dos Python nos Estados Unidos. Bogart disse a ela que se aqueles caras a faziam sorrir, ele tentaria fazer o mesmo com outras pessoas.

Era um tempo em que as gravadoras não eram comandadas por executivos gananciosos, advogados e contadores, em que os ouvintes das rádios estavam se afastando do imediatismo dos “compactos de sucessos” das AMs e migrando para a programação mais voltada aos álbuns das FMs. Como os LPs começaram a tocar bastante em um extenso circuito, o sucesso do grupo nos Estados Unidos foi uma questão de tempo…

Foi então que em 1975 foi lançado por lá o filme Monty Python and the Holy Grail (“Monty PythonEm Busca do Cálice Sagrado”). O triunfo foi estrondoso! George Harrison chegou a propor uma turnê conjunta com eles. Enquanto Idle virou amigo de Paul Simon e Mick Jagger, Chapman arrumou dois parceiros da pesada em suas bebedeiras: Keith  Moon e Harry Nilsson. O único que odiava essas conexões era Cleese, que não cansava de destilar sua raiva, por exemplo, contra Marc Bolan, sem entender a adoração devotada a “aquele cabeludo fedorento”.

Uma das maiores influências do sucesso dos Python foi a criação do programa Saturday Night Live pelo produtor canadense Lorne Michaels, um fervoroso admirador do grupo – assim como todos os canadenses na época, que tratavam os Python com a histeria típica dedicada aos mais famosos rockstars – que não mediu esforços para concretizar o programa, que acabou estreando na NBC em outubro daquele mesmo ano.

Mesmo com o enorme êxito, principalmente depois de terem sido alçados a um alto patamar dentro do cenário pop daquela época, a própria BBC sempre olhou as atividades do grupo com desconfiança. Todos os integrantes sempre se viram na mira de dispensa de uma hora para outra. Não adiantou que, em diversas entrevistas, Harrisson e Paul McCartney exaltassem a genialidade do Monty Python. O primeiro acreditava que o espírito dos Beatles havia reencarnado no grupo a ponto de financiar os próximos filmes que o grupo decidisse fazer, ao passo que o segundo chegava a interromper gravações em estúdio só para assistir aos episódios na TV. O mesmo faziam Elton John e o Led Zeppelin inteiro. Até mesmo Elvis Presley era totalmente fanático pelo grupo, sabendo cada diálogo do filme “do Cálice Sagrado” e imitando cada um dos personagens à perfeição. Tudo isso terminou por estabelecer uma total conexão com o rock ‘n’ roll.

Toda essa glória alcançada se mostrava presente também nos shows americanos. Além da presença sempre constante de Carol Cleveland – considerada por muitos como a “sétima integrante feminina não-oficial” -, em uma apresentação concorridíssima em Nova Iorque ninguém menos que Harrison e Nilsson subiram ao palco fantasiados de soldados da Cavalaria Montada do Canadá para cantar o refrão da antológica “Lumberjack Song”. Na platéia, Paul Simon, Keith Moon, o maestro Leonard Bernstein e a atriz Julie Andrews se debulhavam de tanto rir. Dá para ter uma ideia dos motivos disso no ótimo Monty Python Live at the Hollywood Bowl (1982).

Depois de trabalhar por três anos na confecção de um novo filme – financiado totalmente por Moon e Harrison -, o genial Monty Python’s Life of Brian (A Vida de Brian, de 1979) estreou em setembro do ano seguinte nos Estados Unidos envolto em uma série de polêmicas e protestos nas portas dos cinemas americanos por parte de católicos fervorosamente cretinos, mas que não chegaram a interromper a vitoriosa presença do grupo no cotidiano americano.

Antes disso, Harrison e o produtor canadense Lorne Michaels se envolveram pessoalmente na formação do The Rutles, um grupo-paródia dos Beatles capitaneado por Idle e por Neil Innes, cuja ideia era satirizar a parceria entre Lennon e McCartney. Não foram raras as ocasiões em que Harrison disse que Beatles, Monty Python e The Rutles deveriam montar um único grande show. Não rolou, obviamente, mas o empresário do ex-Beatle, Denis O’Brien, agendou três datas no Hollywood Bowl para que o Rutles se apresentasse. Outro sucesso tremendo e que também gerou um filme, All You Need is Cash.

Depois de mais um filme, o subestimado Monty Python’s the Meaning of Life (1983), as relações entre os integrantes começaram a desmoronar quando Cleese passou a se recusar a viajar e sequer a comer ao lado de seus parceiros, ao mesmo tempo em que o alcoolismo de Chapman enervava a todos ao redor. Palin foi um dos mais veementes em criticar os excessos opressivos de Los Angeles ao explicar porque o grupo se dissolveu em 1989 e cada um foi para o seu lado tratar da vida e de suas respectivas carreiras individuais. Não havia motivos para rir disso…

Em 1998, nove anos depois da morte de Chapman – que mereceu uma homenagem antológica e adoravelmente “desrespeitosa” em seu funeral (veja o vídeo abaixo) -, uma série de shows foi agendada para marcar uma hipotética volta do grupo. Na verdade, as apresentações rolaram em Las Vegas para marcar o 30º aniversário do grupo. Palin foi um dos mais reticentes, principalmente pela ausência de Chapman. Quando a mesma comemoração aconteceu para a BBC, Idle caiu fora. A história finamente acabou de vez…

Por isso, recomendo que você assista a tudo o que os caras fizeram. Todos os filmes e todos os episódios do Flying Circus. É um santo remédio contra o “bundamolismo” reinante nos dias atuais…