Nunca tive a intenção de escrever algo a respeito do disco que marcou a estreia do Renato Russo – sim, era a banda dele, ponto pacífico! – até porque o álbum não causou em mim qualquer impacto na época. Pensando bem, causou sim: dei muitas risadas ao ouvir um grupo de Brasília que se julgava “punk” ter um vocalista autointitulado “Renato Russo” e que cantava algumas músicas até que razoáveis com um timbre de voz parecidíssimo com o… Jerry Adriani! Era hilário.

Minhas impressões não mudaram muito ao longo dos anos em que o grupo foi lançando seus álbuns e arregimentando uma imensa legião (epa!) de fãs cada vez mais histéricos. Vi com total tranquilidade que, ao contrário dos Paralamas do Sucesso, que expandiram seus horizontes musicais até mesmo em uma direção africanizada e diversificada ritmicamente, Renato e seus comparsas permaneceram fincados em suas raízes “folk pós-punk”, se tornando cada vez mais dependente das letras de seu vocalista e compositor.

Foi depois do lançamento daquele disco que soubemos que havia uma “turma de Brasília”, um amontoado de pretensos punks que, na verdade, com raras exceções, eram uns garotos muito bem de vida – alguns eram filhos de diplomatas, de advogados, de militares etc -, que tinham a oportunidade de receber discos importados muito antes que qualquer simples moleque pudesse ouvir. Depois vieram os álbuns da Plebe Rude e do Capital Inicial. Daí para o tal “rock de Brasília” foi um pulo. O próprio Rock in Rio, que rolou na mesma época do lançamento do álbum de estreia da Legião Urbana, acabou facilitando as coisas para o quarteto e para todos os seus colegas contemporâneos, pois mostrou ao Brasil que havia sim uma “nova cena de rock nacional”. Para ajudar ainda mais, estávamos vivenciando o fim da ditadura militar e as pessoas mais jovens começavam a perder o medo de falar e agir. O cenário estava armado…

Ao longo das décadas, li muita gente exaltando a “crueza punk” do disco. Tremenda cascata! Se há algo muito longe disso é o som que se ouve em cada faixa, todas recheadas de efeitos de reverb, delay e mais um monte de outros pedaizinhos.  De “cru” ali não havia nada! Muito menos nas letras de Renato, que exalavam os primeiros aromas poéticos com os quais ele viria a ser idolatrado nos anos seguintes, não importando que aquilo derivasse dos livros e poemas que ele lia incessantemente. Ainda vou escrever uma matéria citando as fontes de onde Renato tirou grande parte de suas “geniais sacadas poéticas”, mas isso é outra história…

É um álbum “mágico”, como são os grandes clássicos? De jeito nenhum! Ele foi sim importante para o surgimento de uma nova percepção a respeito do rock brasileiro por parte de um público que nunca havia ouvido rock na vida. Oscilando entre um romantismo deprimido e algumas conotações políticas, as letras de Renato eram somente um diferencial em um universo recheado de “minha gata é demais”, “minha vida é o rock” e outras bobagens juvenis ditas por gente que já passava dos trinta anos de idade naquela época. Na verdade, todo o som da Legião Urbana passava longe da abordagem festiva e alegre da new wave, buscando suas referências no pós-punk inglês daquela época.

Hoje, revisto à luz da razão, tenho que reconhecer que ele ainda é um dos álbuns mais importantes da história do rock nacional, mas jamais por algum traço de exuberância técnica no manuseio dos instrumentos. Muito pelo contrário! Seus integrantes eram músicos medíocres, mas que estabeleceram uma conexão direta com o público, principalmente no caso do Renato.

Confesso que meu “descaso” em relação ao legado que o grupo deixou depois da morte de Renato Russo mudou um pouco quando reouvi todos os álbuns de estúdio relançados, se não me falha a memória, em 2010, em edições de luxo em CD digipack imitando LPs, com som remasterizado em Abbey Road e encartes caprichadíssimos. Reconheci que o discurso do vocalista tinha se transformado em algo com certo gabarito, corrosivo, veemente, raivoso, melancólico e esperançoso, e que havia uma consistência em toda a obra da banda que, com justiça, impediu que tudo fosse relegado a uma nota de rodapé da história musical brasileira.

O grande impacto no público e na crítica veio com o disco seguinte, Dois (1986), mas aí já é assunto para outra matéria…