Sem sacanagem: desde que uma tal novela chamada O Sétimo Guardião estreou na Globo recentemente, um monte de gente vem me perguntando a respeito de sua música de abertura. “Quem canta essa música maravilhosa?”, “quem é esse tal de ‘fritiúdi méqui’ que tão falando aqui em casa” são algumas das indagações que andei recendo nos últimos dias. Elas se referem a “The Chain”, uma das mais belas canções de um dos grupos mais complicados de todos os tempos em termos de relações entre seus integrantes.

Não vejo problema algum quando gente mais chegada ao som ‘popularesco’ reconhece que nunca tinha ouvido falar do Fleetwood Mac. Normal. É uma banda que não faz parte do universo dessas pessoas e a maioria delas não é chegada a uma pesquisa básica. Duro mesmo é ver gente que ‘teoricamente’ tem certo conhecimento musical passar vergonha alheia ao demonstrar que do repertório do grupo só conhece “Go Your Own Way”, “Don’t Stop” e “Dreams”. Já li cada bobagem por aí…

“The Chain” faz parte de uma das maiores obras-primas da história da música pop em todos os tempos: o álbum Rumours, lançado em 1977. Comentei a respeito dele em um vídeo que gravei para o meu canal no You Tube a respeito de discos antológicos criados a partir de divórcios – ele pode ser assistido aqui. Foi o ápice de uma discografia que, até o momento, não tem discos ruins. Um pode ser mais fraco ou irregular que outros, mas “ruim”? De jeito nenhum! E olha que a banda tem mais de meio século de carreira, dividida em duas fases bem distintas…

A primeira foi totalmente preenchida pelo blues tipicamente inglês, já quem comandava o direcionamento do grupo era o excepcional guitarrista/vocalista britânico Peter Green, que era tão brilhante nas seis cordas quanto na arte de tomar LSD como se fosse iogurte. Não foi à toa que depois de gravar discos muito legais, Green pirou por completo e passou as décadas seguintes ‘fritando’ como um doido, até que se livrou do vício e voltou a gravar e tocar de maneira decente a partir de 1997. Enquanto esteve apto a tocar, ele e seus amigos soltaram ótimos discos de blues e faziam apresentações contagiantes:

 

 

 

 

Quando ficou claro que as rédeas da banda ficariam nas mãos do baterista Mick Fleetwood e do baixista John McVie, a entrada do também ótimo guitarrista Bob Welch e da pianista/tecladista/vocalista Christine McVie, mulher de John, fez com que o blues fosse parcialmente negligenciado em prol de um direcionamento mais voltado ao pop folk jazzy rhythm ‘n’ blues, que deu origem a ótimos álbuns pouco conhecidos no Brasil, como Future Games (1971), Bare Trees (1972), Penguin e Mistery to Me (ambos de 1973):

 

 

 

Foi então que, em meio a troca de integrantes, entraram o guitarrista Lindsey Buckingham e a deliciosa vocalista Stevie Nicks, um casal que já tinha gravado um ótimo e subestimadíssimo álbum como uma dupla em 1973:

 

A partir daquele momento, o grupo abraçou de vez uma vertente mais pop, ensolarada, com um grau de elegância crescente a cada disco que lançavam, cujo ápice foi o tão cultuado Rumours:

 

 

 

 

 

A banda acabou se tornando a personificação ideal para as programações das rádios FMs em todo o planeta. Daí para a MTV foi um pulo fácil. Era música adulta e chique feita na medida certa para todas as idades. Álbuns e ingressos de seus shows foram vendidos aos milhões, mas tudo teve um custo muito alto para cara integrante. Quem é razoavelmente bem informado sabe de todas as histórias de traições, muito pó, bebidas em excesso, putarias e outras “amenidades” que transformaram a convivência entre seus integrantes em um inferno.

Na medida do possível, mantiveram a máquina em funcionamento porque a indústria musical não perdoa quando a “galinha dos ovos de ouro” resolve abandonar o poleiro. Aos trancos e barrancos, com as idas e vindas de seus integrantes em diferentes formações, chegaram até os dias atuais com a aceitação do público absolutamente intacta, embora sem a presença de Buckingham pela enésima vez, agora substituído por Neil Finn, ex-vocalista do grupo australiano Crowded House, e por Mike Campbell, que por décadas foi guitarristas do Heartbreakers de Tom Petty.

 

Bem, agora que você acabou de ler o que escrevi, não há mais desculpa para sair por aí distribuindo bobagens verbais e escritas. Antes tarde do que nunca, né?