Uma das coisas bacanas e chatas ao mesmo tempo para quem trabalha em televisão é o tempo de espera no camarim antes de se entrar no ar ao vivo ou fazer uma gravação de um programa. É chato porque s gente sempre tem que chegar com várias horas de antecedência e aguardar pacientemente que a produção do programa venha avisar que está na hora de ir ao palco e desempenhar a sua função. É legal quando esse tempo de espera é utilizado para ótimos bate-papos com colegas e amigos naquele ambiente.

Hoje tenho a honra em dizer que, por conta de ótimas conversas de camarim, tornei-me amigo de um dos maiores humoristas brasileiros de todos s tempos: Ari Toledo. Simpático e hilariante – ele é capaz de contar uma piada engraçadíssima usando como mote qualquer tema que você levante em uma conversa -, Ari também é um homem que adora conversar a respeito de música e, principalmente, a respeito de violão, uma de suas maiores paixões.

Certa vez, conversando a respeito do instrumento, Ari soltou mais uma frase de seu inacreditável repertório de observações pertinentes: “O violão é um dos melhores instrumentos para um sujeito aprender a tocar mal”. Sensacional! Tal observação se torna mais pertinente quando a gente percebe um monte de pseudoartistas da atualidade empunhando o violão nos palcos das TVs e nos shows com a destreza de um castor. Tudo bem, ninguém precisa sair tocando por aí como um Paco De Lucía, mas é preciso que um mínimo de habilidade seja mostrado na hora de empunhar tão formoso instrumento.

Sei muito bem que você, que lê estas mal traçadas linhas neste exato momento, costuma se aventurar a tocar um violão em casa, junto com os amigos, fazendo serenatas para a patroa e tentando animar aquela reunião em família que você detesta participar. Por isso, resolvi escrever a respeito de dois discos que julgo essenciais para que seu desempenho no instrumento receba uma pequena oxigenação, um upgrade para que sua “técnica” possa se desenvolver.

Ambos os álbuns foram resgatados de um passado distante por Charles Gavin, ex-baterista dos Titãs e um dos mais renomados pesquisadores e “restauradores” da boa música de outrora, que remasterizou tudo de maneira soberba. Foram relançados no mercado em CDs caprichados há alguns anos. Recomendo que você levante a bunda da poltrona e vá atrás destas preciosidades ou mesmo tente encontrá-las nos “streamings da vida”…

O primeiro deles é o excelente É a Bola da Vez, do extraordinário violonista Bola Sete, um talento extraordinário que passou grande parte de sua carreira nos Estados Unidos, para onde se mandou no final dos anos 50 depois de passar muito tempo trabalhando na antiga Rádio Nacional acompanhando todos os cantores que passaram por lá naquela época. Foi em terras americanas que desenvolveu uma carreira solo brilhante, na qual colocava todas as influências de música popular brasileira e erudita, tudo pincelado com um forte verniz da sonoridade do folclore nacional. Sem ter a habilidade de ler partituras com eficiência, ele compensava isto com um “ouvido” espetacular.

Quando decidiu trabalhar e morar nos States, Bola Sete resolveu gravar um último disco no Brasil, que é justamente este É a Bola da Vez, lançado originalmente em 1959. Em cada tema gravado, ele deu uma divina aula de musicalidade empunhando um violão elétrico, instrumento quase de outro planeta para o cenário brasileiro daquela década. O domínio de Bola Sete sobre harmonias e melodias era tão grande que ele era capaz de transformar uma composição como “Um Chorinho dos Nossos” em uma peça quase jazzística que deixaria o Wes Montgomery trêmulo de espanto.

Isso sem falar nos inacreditáveis arranjos de “Não Manche o Meu Panamá”, do bolero “Eu Preciso de Você” e de “Cadê a Jane”, transformada em um samba rock primitivo, como se Scotty Moore – o lendário guitarrista de Elvis Presley – e o genial Dick Dale passassem uma semana na Bahia ouvindo o Trio Elétrico de Dodô & Osmar.

Se você nunca tinha ouvido falar do Bola Sete, recomendo que, além das músicas aqui citadas, assista com atenção ao vídeo abaixo, que traz o grande Bola tocando com o trio do ótimo pianista Vince Guaraldi…

 

O outro álbum é O Violão e o Samba, do não menos lendário Luiz Bonfá, outro talento brasileiro que optou por construir uma carreira internacional e que compôs pelo menos dois clássicos indiscutíveis da música brasileira e também mundial: “Manhã de Carnaval” e “Samba do Orfeu”.

No caso do disco em questão, a eletricidade deu lugar à sutileza acústica. Bonfá colocou seu dedilhado sublime a serviço de um romantismo pueril para dias tão violentos como os atuais. Emblemático disto são os arranjos pastorais de “Inquietação” (de Ary Barroso), “Lamento no Morro” (de Tom Jobim e Vinícius de Moraes) e “Copacabana” (de João de Barro).

Nas mãos de Bonfá, o violão se tornava um ser vivo suave e gentil, cuja função era inundar o mundo com harmonias surpreendentes e belas melodias. Ouça o que ele fez com “As Pastorinhas” e “Liberdade Demais”:

E se você nunca viu Bonfá em ação, não seja por isso:

 

Os dois discos merecem ser ouvidos com a máxima atenção possível, independente do estilo de música que você toque, pois são preciosas fontes de sabedoria em forma de notas e acordes.