Prometi a mim mesmo que jamais voltaria a comentar qualquer premiação do Grammy. Com o passar dos anos, cheguei à conclusão que não vale mais a pena escrever as mesmas coisas de sempre: que esse tipo de espetáculo pouco engraçado e deprimente é um retrato fiel de uma indústria musical que ainda insiste em arrastar correntes por aí, tal qual uma alma penada em busca de algum tipo de redenção. “Tinha prometido”, porque hoje volto a abordar o assunto por conta da quantidade de gente que entrou em contato comigo por e-mail e, principalmente, pelas redes sociais, pedindo para que eu escrevesse algo a respeito do que aconteceu ontem.

Não vou aqui detalhar nada porque simplesmente passei batido. Ignorei solenemente a transmissão, pois não tenho mais saco para aguentar três horas e meia de um desfile de momentos constrangedores e de baixíssimo nível musical/artístico como um todo. Para piorar, o clima de “marmelada” reinante afasta qualquer possibilidade de se assistir a esse troço com algum tipo de prazer ou surpresa. Os “prêmios”, na verdade, servem muito para que as indústrias premiem a si mesmas, há uma questão mercadológica envolvida nessa patuscada. Ignorar isso é acreditar que Lula é um sujeito inocente e que o Bolsonaro é um estadista, coisa de gente com muitos parafusos a menos. Para tornar a experiência de assistir a esse troço ainda mais desagradável, de uns tempos para cá a cerimônia mais parece um episódio ruim do American Idol, com apresentações solo e em duetos elaboradas com a perspicácia de um operador de periscópio de submarino.

Basta dar uma olhada na lista dos ‘indicados’ – uma falcatrua que ninguém consegue desmascarar porque mídia e indústria musical são totalmente cúmplices – para perceber que de onde você menos espera e quem não sai nada mesmo. Quando uma moça insossa como uma tal de Dua Lipa ganha prêmios de “Revelação” e “Melhor Gravação Dance”, cheguei à conclusão que revelação mesmo é algum empresário/produtor tentar emplacar esse troço sem temer uma possível condenação a quinze anos de cadeia por estelionato musical. Aberração ainda maior é uma tal de Kacey Musgraves ganhar como “Melhor Álbum” e “Melhor Disco de Country” pelo pavoroso Golden Hour, que soa tão ‘country’ quanto um texugo com alfinetes nos olhos. E os prêmios de “Melhor Álbum Pop” para o ridículo Sweetener, de Ariana Grande, e de “Melhor Álbum de Rock” para a coletânea de plágios do Led Zeppelin From the Fires, dos moleques do Greta Van Fleet, parece coisa de “pegadinha do Mallandro!” Ahá!!!

Obviamente, nem precisei ter assistido as apresentações na íntegra de gente sem um pingo de talento como Camila Cabello, Post Malone, Shawn Mendes, Cardi B e outros menos conhecidos para sentir um alívio por ter economizado algumas horas de minha vida. Enquanto Camila é uma menina cuja voz dá o mesmo prazer que beber um uísque bem vagabundo com uma sardinha em estado de decomposição dentro do copo, o tal de Malone cantou ao lado do Red Hot Chili Peppers como se tivesse os pulmões entupidos por espuma de barbear. Assisti a uns trechos do tributo a Dolly Parton e tive a impressão de que tudo soou como uma sucessão de temas de desenho animado para crianças com problemas de musgo dentro das orelhas:

 

Para se ter uma ideia do como essa presepada vem se tornando mais ridícula a cada ano, o grande vencedor dessa edição, o rapper Childish Gambino – levou quatro estatuetas, inclusive como “Melhor Canção” e “Melhor Gravação”, por conta da boa “This is America” -, sequer deu as caras por lá, enquanto que o Drake teve seu discurso de agradecimento por ter ganho como “Melhor Rap” cortado na metade quando começou a falar a verdade e diminuir a importância do prêmio. E vamos combinar que botar Jennifer Lopez para fazer tributo aos tempos da Motown é o mesmo que escalar a Bruna Marquezine para comandar cerimônia de teatro em homenagem a Molière.

Se você teve a manha de assistir ao evento até o final e conseguiu de divertir com o que assistiu, tenho que tirar o chapéu: você é um idiota.