Tem gente que adora Pelé, Xuxa, Roberto Carlos, Paulo Maluf, Raul Seixas e Sílvio Santos ao mesmo tempo. Normal. Cada maluco tem o direito de curtir quem quiser. Da mesma forma qualquer pessoa tem o direito de achar que a “salvação do rock” é um quarteto de moleques que se vestem horrivelmente e que imitam descaradamente o Led Zeppelin. Só não contem comigo para validar essa presepada. Porque o Greta Van Fleet é justamente isso: uma farsa para enganar “viúvos do rock do passado”.

Chegamos a um ponto de “vampirismo” musical que qualquer um que resolva retomar o som de um passado distante é chamado de “a nova esperança do rock”, assim como antigamente todo fã racista de boxe ansiava pela “grande esperança branca”, algum peso-pesado ariano que viesse a derrotar os poderosos lutadores negros que dominavam completamente os ringues.

Cada um constrói a sua própria biografia e arca suas consequências. Por isso, a trajetória de uma banda que sequer tem meia década de existência profissional e que vem sendo apontada como aquela que vai resgatar a paixão pelo rock por parte das novas gerações tem tudo para se transformar em um daqueles casos de ascensão tão fulminante quanto a sua queda. Já vi esse filme acontecer inúmeras vezes. Foi assim com os péssimos Strokes, com os fofinhos do Belle and Sebastian, com o intragável Bush, com o subestimado Jet, com o irregular Kaiser Chiefs, com o ótimo Oasis… Toda “salvação”, mais cedo ou mais tarde, acaba tragada por suas próprias presunções.

Quando você pensa nos dias de hoje no termo “classic rock”, o maior popstar da categoria é justamente um grupo de quatro garotos americanos de Michigan que imita descaradamente o Led Zeppelin e é saudado justamente por isso!

Lembro que um sentimento parecido chegou a atingir certas pessoas aqui no Brasil quando surgiu o The Darkness, que era uma tiração de sarro proposital aos exageros sonoros do Queen e de outras bandas gigantes da segunda metade dos anos 70. Teve muita gente que detestou e amou sem saber que aquilo era uma sátira, como o Massacration fazia com os fãs retardados de Manowar e outras bandas canastronas do heavy metal. Uma música como “I Believe in a Thing Called Love” era quase uma paródia! O Greta van Fleet não. Os moleques realmente se levam a sério na tarefa de “salvar o rock”. Que besteirada da porra!

São três irmãos metidos a hippies: o guitarrista Jake, o baixista Sam e vocalista Josh Kiszka, tão genuínos como uma nota de R$ 73. O vocalista parece o neto do cantor Marquinhos Moura – lembra do hit “Meu Mel”, de 1986? –, se veste com as roupas e chinelos – sim, chinelos! – mais ridículos da história do show business em todos os tempos e canta como se tivesse engolido 26 balões com hélio para conseguir imitar completamente o timbre que o Robert Plant tinha até o Led Zeppelin III.  Os outros se esmeram na arte de tentar tocar exatamente como faziam Jimmy Page e John Paul Jones, chegando ao cúmulo de reproduzir alguns dos timbres característicos de ambos. O baterista Danny Wagner, coitado, sem conseguir imitar a pegada ponderosa de John Bonham, se limita a acompanhar seus amigos do jeito que dá.

 

Depois de soltarem no ano passado dois EP com as citadas imitações explícitas – Black Smoke Rising e From the Fires, sendo que este último tem as mesmas quatro faixas do primeiro e outras quatro até então inéditas -, surge agora o primeiro álbum dessa turminha, Anthem of the Peaceful Army, mais um punhado de canções que vão levar os saudosistas dos “rock pau duro dos anos 70” ao delírio. Eu, que sou daquela época, considero isso um troço tão ridículo e constrangedor que tenho vontade de ter nascido em 1845…

Não tenho dúvida que esses moleques fizeram muitos shows como “Led Zeppelin cover” em festivais de colégios e até mesmo uns bares fedorentos da região onde eles moravam. O som deles é tão sem personalidade que chega a espantar. “Age of Man” abre o disco com os caras botando sua imitação zeppeliana em uma canção implicitamente endereçada aos fãs de… Lana Del Rey!!! É um troço tão absurdo quanto patético. Ouça e comprove:

 

As letras chegam a ser involuntariamente cômicas misturando aquele sexismo que sempre havia nas canções do Zeppelin com as abordagens nórdicas e místicas das canções… do Led Zeppelin, claro. Em um pastiche como “The Cold Wind”, o vocalista mistura no discurso referências de ambos os universos para que a banda faça a sua imitação de qualquer faixa do Houses of the Holly. E isso rola em todas as canções do álbum, como em “When the Curtain Falls”, cujo clipe tem mais imitações do Zeppelin e os malditos chinelos do vocalista:

 

Até mesmo no Brasil já tem gente cravando que os moleques vão resgatar o rock como fenômeno de massa, o que é uma bobagem intergaláctica. “Deveríamos, sim, ter quinze, vinte, trinta bandas fazendo um som digno em relação ao passado”, você provavelmente vai dizer neste exato momento e eu respondo: elas existem! O problema é que quase ninguém conhece – prometo fazer em breve uma matéria a respeito disso aqui neste espaço ou no meu canal no You Tube – porque todo mundo tem uma preguiça imensa em pesquisar, preferindo a dependência das recomendações algorítmicas dos “Spotifys da vida”. Não tenho dúvida de que até mesmo alguma estratégia algorítmica tenha sido forjada para indicar o som dos meninos para os velhacos que passam grande partida da vida nos streamings ouvindo os mesmos clássicos de sempre da banda de Plant e Page.

Resumindo: o Greta Van Fleet é apenas um bando de moleques a embriagar tiozões saudosos do tempo da “música de verdade”, que não se furtam a gastar metade dos fluidos de seus isqueiros para saudar essa farsa explícita. Tô fora!