Dependendo da idade e, principalmente, do variado grau de interesse pela música brasileira, é bem provável que você não faça a menor ideia de quem foi Guilherme Lamounier.

Eu poderia escrever “normal, ninguém é obrigado a conhecer artistas do passado”, mas não vou fazer isso porque estou de saco cheio de passar a mão na cabeça de quem tem a possibilidade infinita de ir atrás de QUALQUER informação nos dias de hoje e abre mão disso por pura ignorância, idiotice ou retardamento mental em estado vegetativo.

Infelizmente, se você não sabe quem foi Lamounier ou sequer conhece uma única canção dele, perdeu a chance de conhecer uma obra pequena, mas magistral dentro da história da música brasileira. Em apenas três álbuns, todos batizados com o seu próprio nome, ele espalhou canções simplesmente antológicas que ajudaram a moldar o panorama sonoro da música brasileira nos anos 70 como a conhecemos hoje.

Seu primeiro álbum, lançado em 1970, foi produzido por ninguém menos que Carlos Imperial e teve a participação nos arranjos de duas lendárias figuras da música brasileira nos arranjos – Dom Salvador e o maestro Cipó -, o que conferiu uma “pegada” fortemente influenciada pela então crescente black music, evidenciada em “Cristina”, também gravada na mesma época por Tim Maia, com quem morava justamente na casa de Imperial. Reza a lenda que o refrão da música (“vou ver Cristina”) era na verdade a senha que Lamounier e Tim usavam quando queriam dar um “tapinha num baseado” para não dar ‘bandeira’ com Imperial, que odiava maconha.

O segundo, lançado em 1973 e até hoje considerado como uma obra-prima, cultuado principalmente pelos amantes da psicodelia musical nacional por sua mistura de rock rural e soul. Lamounier se aliou a Tibério Gaspar, o parceiro de Antonio Adolfo na composição de clássicos como “Sá Marina”, eternizada por Wilson Simonal, na composição de todas as ótimas letras. O terceiro, de 1978 e recentemente relançado em CD, trouxe o cantor/compositor com uma maior influência do soul e do rhythm and blues.

 

Três de suas ótimas canções, “Enrosca”, “Seu Melhor Amigo” e “Seres Humanos”, foram gravadas por Fábio Jr. e se transformaram em sucessos instantâneos – a primeira foi regravada até mesmo pela duplinha Sandy & Junior! Uma de suas melhores canções, “Cabeça Feita”, do segundo disco, foi regravada pelo cultuado grupo carioca O Peso no lendário Em Busca do Tempo Perdido, de 1975. Além disso, Lamounier foi uma presença constante dentro das trilhas sonoras de novelas nos anos 70 – “What Greater Gift Could There Be” em O Homem que Deve Morrer (1971), “Requebra que Eu Curto” em O Pulo do Gato (1978) e até mesmo a própria “Enrosca”, cuja versão original, mais encorpada, foi incluída em Locomotivas (1977). Lamounier não teve o menor pudor de compor até mesmo a trilha sonora para a pornochanchada Cada Um Dá o que Tem, em 1975!

A última vez em que ouvimos Lamounier foi quando ele lançou um compacto em 1983 com a música “Eu Gosto é de Fazer o que Ela Gosta”. Depois, se afastou abruptamente da carreira e da própria música, se isolando completamente das pessoas. Voltou a morar com a mãe e passou décadas vivendo dos direitos autorais provenientes das regravações Fábio Jr. e Sandy & Junior.

Lamounier morreu anteontem, aos 67 anos, vitimado pelo coração tremendamente enfraquecido pela diabetes e pneumonia, mas principalmente pelo cérebro e a alma tomados pela esquizofrenia. Quem sabe agora você se interesse pela obra de um dos mais brilhantes cantores e compositores e ouça com a máxima atenção todos os sons que coloquei neste texto. Vai perceber que não exagerei…