Sempre tive enorme afeição por pessoas que, sabe-se lá por qual motivo, resolveram enfrentar a bundamolice da sociedade e combater o bom mocismo hipócrita do sistema com uma saraivada de observações maldosas e bem humoradas ao mesmo – como esquecer o genial Paulo Francis, por exemplo? Muitas vezes, essas mesmas pessoas expressavam pontos de vista diametralmente opostos aos meus, mas a maneira como faziam era absolutamente sedutora aos meus olhos, capturando a minha atenção tal qual um baiacu ao ver um camarão apetitoso dando sopa no fundo do mar.

Um de meus autores favoritos ainda é o extraordinário H. L. Mencken, que foi, sem sombra de dúvidas, um dos maiores jornalistas que este planeta já teve a honra de abrigar. O cara simplesmente escrevia a respeito de tudo: política, comportamento, literatura, religião, moral e até sobre música!

Ele foi crítico absurdamente ácido da sociedade como um todo e da hipocrisia do ser humano. Mandava autênticos cruzados de direita no queixo da imbecilidade onde quer que ela fosse exercitada. Tinha plena consciência de que seu país, os Estados Unidos, era uma nação de imbecis e que não havia outra maneira de frear essa proliferação de mentecaptos do que escancarar isso aos quatro ventos.

Bem, está na cara que ele fracassou nessa missão, já que a maioria dos americanos é formada por um rebanho de patetas que se orgulham de ser como são. Se ainda fosse vivo, Mencken provavelmente continuaria a ser a verdadeira metralhadora de insultos de sempre, disparando “balas verbais” contra a praga do provincianismo.

Se você quer ter uma vaga ideia da verve de Mencken, sugiro que assista ao filme O Vento Será Tua Herança, dirigido por Stanley Kramer em 1960. Embora Spencer Tracy e Fredric March fossem, a princípio, os astros principais, quem roubou as cenas foi Gene Kelly, fazendo o papel de E. K. Hornbeck – totalmente inspirado em Mencken, obviamente -, um jornalista ateu debochado que fazia a cobertura do julgamento de um professor que ensina a Teoria da Evolução de Darwin em uma pequena cidade lotada de jecas do interior americano.

Abaixo você tem duas cenas do filme: a primeira com Kelly contracenando com um casal em que o rapaz é o ator Dick York, de quem a minha geração aprendeu a rir e simpatizar como o marido da deliciosa e engraçadíssima Elizabeth Montgomery na série A Feiticeira; a segunda com o “duelo” de atuações magistrais entre Kelly e Tracy para ilustrar o que escrevo:

 

 

Apesar de ser um “filme de tribunal”, o sarcasmo do jornalista, aliado aos diálogos sensacionais, deixava expostas as fragilidades do puritanismo.

Agora, se você quer mergulhar no “universo cascavélico” de Mencken, é imprescindível a leitura do antológico O Livro dos Insultos, coletânea de ensaios escritos por ele entre 1916 e 1949, em que batia com força na cara da cretinice americana.

Coloco abaixo algumas pérolas de Mencken para que você veja como é possível destilar ofensas de maneira divertida:

“Imoralidade é a moralidade daqueles que se divertem mais do que nós”;

“As únicas pessoas realmente felizes são as mulheres casadas e os homens solteiros”;

“Mostre-me um puritano e eu lhe mostrarei um filho da puta”;

“Digam o que disserem sobre os Dez Mandamentos, devemos nos dar por felizes por eles não passarem de dez”;

“Pelo menos numa coisa homens e mulheres concordam: nenhum deles confia em mulheres”;

“A consciência é uma voz interior que nos adverte de que alguém pode estar olhando”;

“Os solteiros sabem mais sobre as mulheres que os casados. Se não, também seriam casados”;

“O adultério é a democracia aplicada ao amor”;

“A fé pode ser definida como uma crença ilógica na ocorrência do improvável”;

“Quanto mais envelheço, mais desconfio da velha máxima de que a idade traz a sabedoria”;

“Pode ser um pecado pensar mal dos outros, mas raramente será um engano”;

“Os homens se divertem muito mais que as mulheres. Talvez porque se casem mais tarde e morram mais cedo”;

“Nunca superestime a decência da espécie humana”;

“Incrível como meu ódio pelos protestantes desaparece quase por completo quando sou apresentado a suas mulheres”;

“É difícil acreditar que um homem esteja dizendo a verdade quando você sabe muito bem que mentiria se estivesse no lugar dele”;

“A guerra contra os privilégios nunca terá fim. Sua próxima grande campanha será a guerra contra os privilégios especiais dos desprivilegiados”;

“Todo homem decente se envergonha do governo sob o qual vive”;

“O principal conhecimento que se adquire lendo livros é o de que poucos livros merecem ser lidos”;

“De fato, é melhor dar do que receber. Por exemplo: presentes de casamento”;

“O cristão vive jurando que nunca fará aquilo de novo. O homem civilizado apenas resolve que será mais cuidadoso da próxima vez”;

“Padres e pastores são cambistas esperando por fregueses diante dos portões do Céu”.