Fecho os olhos e consigo relembrar o exato momento de uma manhã de sábado de 1981.  Não lembro o mês, mas isso não importa. Estou dentro de uma das lojas da rede Museu do Disco, no centro de São Paulo, olhando como sempre a fileira dos LPs importados, na caça de um único disco que me fizesse babar e comprá-lo com as minhas parcas economias. A grana restante dava para um sanduba, um guaraná e a passagem de ônibus de volta para casa.

Vou passando pelos discos e olhando com calma, para escolher bem. Obviamente, discos de bandas que eu já conhecia tinham a preferência, não dava para arriscar em desconhecidos. Estava pensando nisso quando então me deparei com AQUELA capa.

Subitamente, o mundo parou de acontecer à minha volta. Por alguns segundos, nada se movia, nenhum som… Nada. Até mesmo a minha própria respiração começou a ratear. Meus olhos pareciam ter se petrificado. Eu não conseguia parar de olhar AQUELA capa, o logotipo da banda, o título.

Alguns minutos depois – que para mim pareceram séculos -, consegui olhar a contracapa daquele LP lacrado, zerinho. A foto da banda no palco, secundada por pequenas fotos individuais de seus integrantes, as canções com títulos estranhos, a sensação de ter encontrado algum tipo de “monolito negro” – quem assistiu a 2001: uma Odisseia no Espaço sabe o que quero dizer – e a busca por uma tentativa de compreender o que era aquilo… Eu sequer conseguia engolir a minha saliva.

Caminhei – ou melhor, me arrastei – até o caixa, tirei umas notas amarrotadas do meu bolso, entreguei à funcionária e sai da loja com a sensação de que todo o sangue do meu corpo foi drenado sabe-se lá para onde. Comprei “no escuro”, sem ter a menor ideia do que era aquilo.

Peguei um ônibus com a sacola da loja embaixo do braço, em estado quase catatônico. Voltei para casa sem sequer lembrar de comer alguma coisa. Entrei sem fazer qualquer barulho, subi ao meu quarto, deslacrei o disco, dei aquela boa cheirada dentro da capa para sentir aquele odor característico do disco importado – quem tem 60 anos ou mais sabe exatamente do que acabo de escrever -, coloquei o LP para tocar e… e… nunca mais fui o mesmo.

Sei que todo mundo que ouviu Killers pela primeira vez sentiu algo semelhante, não importa em que época isso tenha ocorrido. Por isso, nesta semana, quando o disco completou 40 anos de seu lançamento, sei que você fez o mesmo que eu: fechou os olhos e lembrou exatamente de quando viu a capa desse clássico indiscutível, das sensações, da primeira audição, do choque e tudo o mais decorrente dessa experiência.

Sinta-se abraçado, pois não importa quem você seja: de alguma forma, estamos conectados.