Meio século. Sim, foi há cinquenta anos que, pela primeira vez, conseguimos ter uma ideia da porrada que era um show do The Who naqueles tempos sem ter a oportunidade de assistir aquilo de alguma forma. Não havia videocassetes ainda e muito menos a chance de presenciar um show deles. Live at Leeds era a chance.

Os caras tinham lançado o mitológico Tommy no ano anterior e vinham tocando o disco praticamente na íntegra. Gravaram quase todos os shows da turnê daquele ano, mas o som nunca ficava do jeito que queriam. Foi por isso que agendaram o tal show em Leeds e outro em Hull, no dia seguinte, para especificamente gravarem um disco ao vivo.

Como era comum na época na Europa, o show rolou no refeitório da Universidade de Leeds, na noite fria de 14 de fevereiro de 1970. Roger Daltrey, Pete Townshend, John Entwistle e Keith Moon subiram ao palco improvisado e fizeram aquilo que melhor sabiam: tocar como se a vida de todo mundo ali dependesse do que iria rolar.

 

the who capa brasileira

Quando foi lançado no Brasil, a capa foi criminosamente mudada. Em vez da impressão simulando uma capa em papelão, como se fosse um bootleg da época, botaram a foto da banda em um show ao ar livre durante o dia. Durante décadas, foi assim que tínhamos a imagem do álbum na cabeça, até que as primeiras edições originais começaram a surgir nas lojas de LPs importados. Não foram poucos os amigos que diziam preferir a capa nacional, mas aí era questão de gosto pessoal. Pouco importava.

Sabe-se lá por qual motivo, o disco original tinha apenas seis faixas, nenhuma delas do Tommy, mas o impacto em nossas cabeças foi tão grande que ninguém saía ileso da experiência de ouvir aquela mistura de potência e melodia, tocado da maneira mais crua possível.

Quando ouvi a banda soltando torpedos nos mais de quinze minutos de “My Generation”, “Substitute”, “Magic Bus” e nas revisitações de “Young Man Blues” (de Mose Allison), “Summertime Blues” (de Eddie Cochran) e “Shakin’ All Over” (do Johnny Kidd & The Pirates), um filme começou a passar na minha mente de adolescente, tentando imaginar como seria ver aqueles quarto malucos mostrando o que eu ouvia em cima de um palco. O mesmo acontecia na cabeça de todo moleque. Era uma época em que nossa imaginação corria solta e nos fazia pensar em tocar “air guitar/bass/drums” e cantar com Daltrey na frente do espelho. Bons tempos!

Tanto o show de Leeds como aquele de Hull só foram lançados na íntegra há dez anos, por ocasião do 40º aniversários dessas apresentações, quando fizeram uma “gambiarra” para solucionar os problemas em alguns vocais de Daltrey e Townshend, e principalmente da captação do baixo de Entwistle na época, colocando o que fizeram em Hull nas gravações de Leeds. Ah, as maravilhas da tecnologia digital são muito bem vindas nesse caso específico, né? Caso contrário, seríamos provados de ouvir essas duas maravilhas e nossas vidas então teriam enormes lacunas. Ainda bem que isso não aconteceu.

Não sei como você vai fazer isso, mas sente com os seus filhos e faça uma “audição em família”. Todo mundo vai sair ganhando com isso…