Tinha dez anos de idade em 1970. Pedi para minha mãe, a saudosa e sábia Dona Irene, um disco importado como presente de aniversário. Ela me levou até a saudosa loja Museu do Disco, no centro de São Paulo. Perguntei ao vendedor e ele sugeriu que eu levasse o disco de estreia de um grupo chamado… Black Sabbath.

Quando vi a capa, senti um estranho calafrio em minha espinha ainda infantil e necessitando de mais calcificação. É uma sensação da qual ainda me lembro. A foto era desfocada, a paisagem era estranha e havia uma figura sinistra, verde, tal qual uma bruxa envolta em luxúria que iria povoar os meus sonhos nos anos seguintes. Cheguei em casa, coloquei na vitrola e…

Nunca vou esquecer o que senti depois que ouvi a canção “Black Sabbath” pela primeira vez. Meu cérebro parecia rodopiar dentro da minha cabeça como as hélices de um helicóptero antes de começar a escorrer por minhas orelhas. Passei uma semana dormindo com a luz do quarto acesa, tamanho o medo que se apossou do meu espírito só com aquela introdução: a chuva, o som do sino ao longe e AQUELE riff do Tony Iommi, mais a voz cavernosa de Ozzy Osbourne, o baixo engordurado de Geezer Butler e a bateria arrastada de Bill Ward. Só consegui ouvir o restante do disco uma semana depois, pois não conseguia parar de ouvir aquela bendita/maldita música. Nunca mais fui o mesmo…

Hoje, até entendo que algumas bandas vinham fazendo um som bem pesado e que, de certa forma, poderiam ser associadas ao que veio a ser conhecido como “heavy metal” mais tarde, como eram os casos do Sir Lord Baltimore – que lançou naquele mesmo ano o ótimo Kingdom Come ­– e o Blue Cheer (que sempre foi mais hard rock do que heavy), mas o que o Black Sabbath mostrou na canção que abre o seu disco de estreia era algo que estava além de qualquer coisa que pudesse causar tamanho impacto, em termos de agressividade tétrica.

Como se não bastasse isso, a sequência com “The Wizard”, “Behind the Wall of Sleep” e “N.I.B.” não apenas referendava aquilo que ouvíamos, mas preparava o terreno para as sensacionais versões de “Evil Woman”, do grupo americano Crow, e de “Warning”, do The Aynsley Dunbar Retaliation, esta última com cara de jam session. E ambas intercaladas com outra paulada pesada e soturna, “Sleeping Village”, que trazia dois solos simultâneos e diferentes de Iommi, um em cada caixa de som!

O que a banda fez depois foi aprimorar ainda mais o que mostraram na estreia por intermédio de álbuns fundamentais para qualquer pessoa que tenha o direito de andar por aí consumindo oxigênio – Paranoid, Master of Reality, Vol. 4, Sabbath Bloody Sabbath, Sabotage ­-, mas nada conseguiu mudar o mundo como AQUELA música DAQUELE disco. Meio século depois, ainda sinto as mesmas sensações de moleque em cada ocasião que boto o álbum para tocar…