O terrível momento que vivemos nos obriga a ficar em casa o máximo de tempo possível. Tenho usado essa “clausura” para mergulhar em discos que há muito tempo não ouvia com a devida atenção e faço isso com mais intensidade e frequência nos finais de semana. Domingo passado, usei grande parte do dia para reouvir com a atenção minuciosa de sempre alguns discos longos e clássicos. Um deles foi Frampton Comes Alive, do Peter Frampton.

Para nós aqui no Brasil, sua figura era quase uma miragem, um delírio apenas para quem acompanhou sua carreira do lendário e cultuado Humble Pie e apreciava seus criminosamente subestimados álbuns solo. Ninguém sequer tinha a menor ideia de que ele tinha surgido com um grupo chamado The Herd, do qual poucos curiosos e sem preguiça para pesquisar – como o tio aqui – só ouviram falar muitos anos depois.

Frampton vinha voando em torno de uma nave desgovernada chamada “automarketing”, tentando se agarrar a qualquer coisa que pudesse salvar a sua carreira solo. De nada havia adiantado gravar ótimos discos como Wind of Change (1972), Frampton’s Camel (1973), Something’s Happening (1974) e Frampton (1975) se as vendas eram irrisórias. Ele só queria sobreviver artisticamente.

Em contrapartida, habituada a abacaxis inomináveis no mercado fonográfico de “sex symbols”, a indústria americana ansiava por alguém que exalasse beleza física e credibilidade sônica ao mesmo tempo. Além disso, os efeitos visuais e especiais – que hoje trabalham para realçar o realismo de plástico dos shows – antigamente eram inexistentes para as bandas de rock. Com as exceções que todo mundo conhece – Kiss, Alice Cooper, Genesis com Peter Gabriel e alguns outros -, tudo era tocado na raça. Se aparecesse alguém que unisse um som potente, canções de alto nível e que levasse as garotas a molharem suas calcinhas antes de abrirem suas carteiras, seria maravilhoso. Quis o destino que o guitarrista inglês fosse esse cara…

Depois de quase sumir no espaço sideral de álbuns que são relegados ao esquecimento, Frampton reapareceu subitamente em 1976 para salvar a gravadora A&M com um álbum duplo esplendoroso e gravado ao vivo, perfeito para aquecer os corações de todo mundo, incluindo os roqueiros mais radicais da época: Frampton Comes Alive.

Visualmente, a capa dupla era bem esperta, já que dava destaque ao belo rosto de Frampton na parte frontal, mas que ao ser aberta na vertical trazia a complementação da foto com o cara de guitarra em punho, mostrando que não era apenas um “rostinho bonito”. A ação quase hollywoodiana de seu lançamento, com maciça execução de várias faixas nas rádios, e promoção de preços – era um álbum duplo que custava o mesmo que um disco simples nos Estados Unidos – fez com que as vendas se multiplicassem em escala nunca antes vista para um disco gravado ao vivo. Quando um personagem como Frampton surgiu sem demonstrar um único sinal de mediocridade ao longo daquele álbum, foi como uma benção para todos os envolvidos.

As vendas foram astronômicas não apenas nos Estados Unidos, mas no mundo todo. Não lembro de um álbum ao vivo ter causado tanta comoção em públicos tão diferentes quantos os roqueiros empedernidos e as cocotinhas daqueles tempos, mas pode muito bem ser um lapso de memória de minha parte, já que na época haviam convenções ridículas por parte de quem ouvia música com sofreguidão. Um tipo de público não acompanhava o que rolava em outro universo musical que não fosse aquele de sua preferência, um tipo de bobagem que só a maturidade pode fazer desmoronar.

O repertório era tão sensacional que Frampton adicionou ao disco uma aparente ironia os fãs mais roqueiros ao usar quase um lado inteiro do LP 2 só para as baladas. As meninas sentiam que a audição do álbum propiciava uma espécie de “romance” entre os protagonistas da experiência na solidão do quarto, em que cada sílaba da voz do guitarrista parecia uma sucessão de beijos apaixonados. Por outro lado, uma das sequências mais interessantes era justamente a que unia “Lines on My Face” e “Do You Feel Like We Do”, pois havia um contraste marcante e ao mesmo tempo significativo a respeito de como Frampton conseguia exibir influências do jazz rock dentro de seu som mais radiofônico sem abandonar sua veia roqueira. Nem o fato de ter os microfones dos bumbos colocados ao contrário na bateria de John Siomos – algo que o próprio Frampton relevou às gargalhadas em uma bate papo que tivemos anos atrás, quando eu ainda era editor da revista Cover Guitarra – conseguiu estragar a qualidade sonora do álbum. Torná-lo plausível como sex symbol foi então uma tarefa fácil…

No fim, Frampton fez um discaço sobre o prazer de estar em cima de um palco, em comunhão com uma plateia extasiada pela beleza de suas canções, conseguindo embalá-lo em um formato acessível a todos os públicos.

A espera pelo sucessor deste álbum duplo foi angustiante demais e resultou em uma tremenda decepção com o lançamento de “I’m in You”. Na época, imagine o que poderia ter sido esse disco com músicos melhores e uma produção mais caprichada, mas isso é papo para outro dia.

A música triunfal de Frampton Comes Alive ainda hoje realça a bravura de se fazer um som que fosse comercial e intenso ao mesmo tempo para os padrões da época, mesmo analisando tudo pela ótica de mais de quatro décadas de diferença entre o seu lançamento e os dias atuais.

Recomendar esse álbum duplo a alguém que nunca ouviu o som de Frampton dá a sensação de participar de um salvamento considerado impossível. Pode apostar que os créditos finais a respeito da importância deste tremendo guitarrista/cantor/compositor ainda não subiram…