Inteligência Artificial Contratada por Gravadora

É isso mesmo que você acabou de ouvir. A gravadora Universal Music assinou um contrato com a Sound Labs, uma startup de inteligência artificial. Esta parceria permitirá treinar uma IA para imitar os próprios artistas do seu elenco. A declaração oficial da gravadora afirma que “tal recurso não estará disponível para o público em geral e tem como intuito ajudar os artistas na criatividade”. Isso soa como uma piada revoltante, especialmente quando a própria gravadora acrescenta que a IA poderá ser treinada para imitar os vocais dos cantores e bandas da gravadora com alta fidelidade, oferecendo aos envolvidos um controle de produção e total aprovação artística.

Ou seja, eles admitiram publicamente que a intenção é fazer música sem que os seus autores estejam diretamente envolvidos na criação. Isso é um absurdo. Como se não bastasse, o uso dessa tecnologia foi essencial, por exemplo, em remasterizações, remixagens e até em restaurações absurdamente complexas de imagens e de áudio, como aconteceu de maneira sensacional no extraordinário documentário “Get Back” dos Beatles.

Agora, a Universal quer expandir essas possibilidades relacionadas à IA de um modo claramente nada elogiável. Meu advogado me proibiu terminantemente de usar o termo que melhor explica isso aí, mas nem é preciso perder muito tempo analisando minuciosamente as consequências absolutamente nefastas dessa iniciativa para o mundo da música. Está na cara que isso está sendo feito para forjar vozes e canções, enganar o público e o próprio mercado.

Obviamente, a palavra “treinar” tem significados ambíguos, mas significa exatamente o aprimoramento da ferramenta tecnológica para imitar com uma suposta perfeição as vozes dos seus artistas. Eu mesmo já testemunhei exemplos em estúdio de como é possível fazer isso com as ferramentas atuais de IA.

Essa situação levanta várias questões éticas e legais sobre o uso da IA na música. Será que os fãs saberão distinguir entre o artista real e a versão gerada por IA? E como isso afetará o valor percebido da autenticidade na música? A longo prazo, essas práticas podem levar a uma desvalorização da arte musical como expressão humana genuína e única, substituindo-a por produções sintéticas que, apesar de tecnicamente perfeitas, podem carecer de alma e emoção.

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