Boris Grilo é um daqueles apaixonados por música cada vez mais raros nos dias atuais. Criador de um dos perfis mais legais do Instagram – o excelente Music for the Masses (@music_forthemasses) -, ele é daqueles incansáveis debatedores que podem passar horas conversando a respeito dos detalhes de um único álbum, seja de quem for que transite dentro do universo do rock – especialmente o heavy metal -, da música brasileira do passado, da soul music dos anos 70 e o que mais surgir pela frente. Foram esses os motivos que me levaram a convidá-lo para o debate que eu e Paulo Baron fizemos na sexta passada (3/8/2021) em meu canal no YouTube, a  respeito do mais recente álbum do Iron Maiden, Senjutsu – você pode assistir aqui.

Foi por isso também que abri o espaço aqui do meu blog para que ele expusesse toda sua argumentação a respeito desse disco que, em minha opinião, é ótimo. O texto a seguir é a minuciosa opinião de Boris a respeito desse álbum e merece ser lido – e ouvido – com muita atenção!

 

“O Iron Maiden pode ser acusado de qualquer coisa, menos de ser um grupo acomodado e com medo de atualizar seu som. E isso acontece desde 1999, com o retorno de Bruce Dickinson e Adrian Smith à banda. De lá para cá, a banda reciclou sua sonoridade, agregando ao seu já conhecido estilo influências setentistas, principalmente ligadas ao rock progressivo. Claro que essas influências existem desde o início de sua fundação no final da década de 70, mas hoje são muito mais evidentes. Discos como A Matter of Life and Death (2006) e Book of Souls (2015) são exemplos claros. Entretanto, o novíssimo Senjutsu é um passo além.

É um álbum duplo – triplo em sua edição em vinil – em que o sexteto não se prendeu às regras pré-estabelecidas. E é exatamente esse o ponto de ousadia que a banda entrega aos seus fiéis fãs. Senjutsu não é um disco “urgente”. Boa parte das canções do álbum foge ao padrão “verso – ponte – refrão”.  Tudo nelas demanda tempo e atenção do ouvinte, pois em cada audição é possível descobrir novas camadas musicais, principalmente os violões fazendo algumas bases. Além disso, a banda soube fazer uma viagem à sua brilhante trajetória, inserindo pequenas referências de toda sua discografia.

De cara, o ouvinte é pego de surpresa pela faixa-título pesada, densa e quase Black Sabbath. As batidas meio tribais de Nicko McBrain na introdução se unem a um riff esplendoroso e pesadíssimo de Adrian Smith. Depois de alguns segundos surge Bruce Dickinson cantando em um tom médio excelente, que cresce no refrão, dando à canção toda a dramaticidade que ela necessita. Abertura de cair o queixo!

 

Se “Stratego” é a sequência perfeita após todo o ar soturno e denso da faixa inicial, e “The Writing on the Wall” soa ainda melhor dentro do track list do álbum, é a partir de “Lost in the Lost World” que Senjutsu ganha ares épicos e semelhantes a uma trilha sonora. A linda introdução, com violões e backings muito bem encaixados e que me fazem lembrar – e muito! – o som do Uriah Heep e algumas melodias do Jethro Tull, antecede a “cavalgada” clássica da banda, aliada a mais um riff de guitarra arrasador. Lembra quando escrevi acima que a banda fez pequenas referências à sua discografia? Pois é exatamente nesse momento em que elas começam a aparecer. Em muitos pontos, “Lost in the Lost World” lembra faixas de X Factor (1995), além de um dos solos remeter aos sintetizadores de Somewhere in Time (1986).

 

 

 

Resultado de outra parceria entre Dickinson e Smith, “Days of the Future Past” é fantástica e a junção perfeita de sons da carreira solo de Bruce com aquela vibração mais rock and roll do álbum No Prayer for the Dying (1990), com um refrão incrível e uma performance arrebatadora do vocalista.

 

Fechando o primeiro disco de forma grandiosa, “Time Machine” é, sem sombra de dúvidas, um dos grandes pontos altos do álbum. Alguns de seus riffs remetem à fase mais recente do Rush, como se o trio canadense da época do Test for Echo (1996) encontrasse o Iron Maiden de Brave New World (2000) e A Matter of Life and Death. Destaque absoluto para os solos de guitarra inspiradíssimos de Adrian, Dave Murray e Janick Gers.

 

O segundo disco inicia com mais uma canção muito bonita da dupla Dickinson/Smith: “Darkest Hour”. É uma balada pesada e soturna, com linhas de guitarra um tanto quanto “lamacentas” e que destacam ainda mais os solos da música, todos inspiradíssimos e cheios de feeling.

 

E então surge a sequência dos três épicos compostos exclusivamente por Steve Harris que finalizam Senjutsu. O primeiro deles é espetacular e com cara de hino, “Death of the Celts”, uma espécie de “irmã mais nova” de “The Clansman” (do sempre massacrado Virtual XI, de 1998), não só pela temática da canção, mas também por sua introdução acústica, com Bruce cantando em tons mais suaves. À medida que a canção vai crescendo, o vocalista coloca uma interpretação cada vez mais forte, muitas vezes com timbres mais rasgados. Porém, o grande clímax da canção se dá após os solos de guitarras, com uma longa seção instrumental “cavalgada”.

 

O segundo épico é “The Parchment”, a faixa mais longa do álbum me uma daquelas composições que Harris faz como ninguém e que causam um impacto gigante nos shows. Assim como a faixa-título, a canção se desenvolve com uma vibe densa e obscura, com a qual percebemos que o baixista quis captar elementos dos temas egípcios utilizados em Powerslave (1984), agora misturando com a faixa-título do Book of Souls.

 

O encerramento acontece de forma apoteótica com “Hell on Earth”, com mais um riff pesado, excelentes solos de guitarras e uma melodia “grudenta”, com destaque absoluto para as linhas de voz de Bruce, quando ele experimenta timbres mais agressivos e dá à parte final da canção um peso extra.

 

Mesmo com mais de 40 anos de carreira, o Iron Maiden deu ao mundo mais um álbum fantástico que, com o passar dos anos, será alçado à condição de “clássico”. Mesmo sabendo que ainda tem quem insista com a patética ladainha de que ‘a banda acabou’ – principalmente por estes lados atrasados do mundo que formam o Brasil -, por sorte Steve Harris e seus companheiros não dão a mínima bola a essa gente. Ainda bem!”

Boris Grilo

Boris Grilo trabalha com produção de shows e eventos, é apaixonado por música e o criador do excelente perfil Music for the Masses no Instagram (@music_forthemasses).